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Foto: Casey Wayne |
O problema é que os filhos da puta se escondem bem que só vendo nos
labirintos do nosso passado. Aproveitam-se dos nossos medos mais ocultos e, às
vezes, nem uma vida inteira é bastante para exterminá-los todos.
Então, para que perder tempo com eles?
Em Rotten Angels você pode lamber as calçadas.
As pessoas usam o automóvel até para ir ao banheiro dar aquela rápida
mijadinha básica. Parece que os bebês quando nascem já saem de lá de dentro do
meio das pernas das mães dirigindo reluzentes cadillacs.
Não em Golden Crap - esses
alguns quarteirões de esquinas urinadas em
downtown que parecem um câncer confinado, que não cresce, mas
irremediavelmente mortal. Só algumas baldias chaleiras amassadas de
indefiníveis cores descascadas soltando fumaça fedorenta e ruídos asmáticos de
seus moribundos motores. Bem, à noite costuma aparecer gente estranha de fora
para se divertir com a liberdade que não tem coragem de viver no seu dia a dia
em outros lugares da cidade.
No mais, são pessoas que andam, andam, andam, entrando e saindo de
hotelecos infecciosos ou casarões decadentes que alugam quartos. Entrando e
saindo de bares ou lojas de bebidas. São aquelas que escolheram gastar seu
pouco tempo de vida para irem ao encontro breve da morte, no lugar de fazerem
de conta que são felizes e ficarem idiotamente surpresas quando a Dama Negra do
Alfanje chegar no tempo que tiver de vir. Então um dia, sem que se perceba,
desaparecem - morram talvez - e são substituídas por outras de caráter
igualmente epidêmico que surgem sabe-se lá de onde. Dá para pensar que se
Hitler quisesse, teria com sucesso feito aqui seu gueto final sem nem abalar a
conveniente alienação de todos. O povo das calçadas de Golden Crap sempre
acorda arrotando álcool e vomitando conteúdos indefinidos de seus estômagos
como se saudasse o sol ressaqueado que faz crescer altas as palmeiras que
escoltam gloriosas as avenidas asfaltadas de Rotten Angels. E andam,
andam, andam como almas condenadas.
Naquela noite de chuva de inundar Macondo, tocando um blues em língua estranha cantado por um
sujeito de voz fanhosa (Quem gastaria um níquel furado nessa velha jukebox para pôr para tocar uma canção
tão triste? Bem, cada um sabe o preço de sua alegria).
“Foi
assim, a lâmpada apagou,
A vista
escureceu
E um
beijo então se deu
E veio a ânsia
louca, incontida do amor“ (1)
Well, a
lâmpada não apagou, mas era tão debilmente azulada que não faria diferença nem
para um morcego míope. A ânsia pode ter sido louca, quase incontida, mas sem
nada a ver com amor. E definitivamente não foi um beijo o que se deu.
- Pode ir, eu sempre preferi mesmo ficar sozinho.
- Eu não posso fazer isso, você não tem amor suficiente para dar nem
para você mesmo.
Caralho, só mesmo uma
mulher para falar em amor no momento em que você está dando um pé na bunda da
vadia, porque não aguenta nem mais lembrar do cheiro que a ordinária tem
grudado nos pelos do meio das coxas.
- Tudo bem, só uma ultimazinha
e depois você se manda da minha frente, tá?
Com olímpica rapidez
atlética ela ajoelhou, com perícia de mão de mágico de circo abriu o zíper e
desapareceu com meu pau no fundo da garganta, chupando com a voracidade
selvagem de um canibal aspirador de pó. Eu queimando uma bituca de Marlboro na
outra. Tédio.
Ainda bem que o bar estava
vazio. Só o Jerry Lee, engordurado cabelo amarelo parecendo tingido com chá de
cebola, assistindo àquele espetáculo de pública pornografia explícita. Mas ele
já tinha visto aquilo tantas vezes que nem se tocava mais. Só se preocupava em
que eu não mandasse novamente pendurar a conta. Porém, tenho certeza de que o
filho da puta fica se punhetando lá atrás do balcão, enquanto finge que não
está olhando.
Apesar do saco cheio que
estava da cara dela, tinha de reconhecer: chupetinha dos deuses: ela fazia
maravilhas quando não usava aquela boca para falar merda. Ah, foi uma daquelas:
intensa e generosa como uma mijada de mulher gorda.
Engasguei e quase afoguei a
vaca ao mesmo tempo. Detrás do escuro dos olhos apertados vi grandes bolas de
fogo explodindo.
- Foi gostoso como sempre
é, não foi, escrota?
Uma gota branca descendo
brilhante no canto direito da boca. Sempre deixava esse pouquinho escorrendo
nojento pelo queixo. (Não podia ser coincidência, tinha de ser de propósito,
meu Deus!).
- Nem um beijo de
despedida?
- Qualé, ô puta de butique?
Tá levando uma dose elefante de minha porra aí dentro do fundo do estômago e
quer mais o quê? Mas nem que você escovasse os dentes. Volta logo pra casa-palácio
do papai bacana, que ele ainda pensa que você é uma menininha de família e logo
te arruma um corno e broxa daqueles que são doentiamente viciados em ter
emprego e trabalhar, une vocês pelos sagrados laços do matrimônio e vocês vão
ter um monte de filhos saudáveis, rosados e babacas.
Ela me olhou triste, (Porra,
só faltava essa vaca começar a chorar, detesto mulher chorando) limpou os
lábios com as costas da mão, virou-se e foi embora sem dizer nada. Sabia que
não ia adiantar mesmo.
Naquele momento saía pela
porta do “O Rato Morto” (Puta nome
lindo para um boteco que, não importa o tempo, consegue te fazer sentir no set de um filme da década de quarenta) o
último ano de minha vida, que tinha sido um tesão no começo, bom e mais ou menos
no meio e uma bosta no final.
- Mais um escocês fajuto
nas pedras, Jerry Lee!
- Olha aqui, John Doe, tu
pode ser metido a intelectual esquisito para essas coitadas que se submetem a
fazer tudo o que você manda, mas pra cima de moi não. Por que não pede whisky
como todo mundo? E se acha a bebida tão ruim, por que não vai encher a caveira
em outro lugar, ô vadiagem?
- E você acha que se eu
tivesse grana, ficava tomando esse veneno nessa biboca ordinária de quinta,
porra? E, antes que eu me esqueça, vagabundo é a puta que te pariu.
- O senhor tem Cutty Sark legítimo?
Abobado com a visão, o Jerry
Lee só conseguiu balançar afirmativamente a cabeça.
- Então dois double cowboys para mim e para o,
digamos, cavalheiro.
O cara que inventou a frase
“Nunca houve uma mulher como Gilda”
seguramente não conhecia aquele magnífico espécime feminino que se dirigia rebolando
em slow motion em direção à minha
mesa.
Exuberante como uma vilã de
filme noir, num daqueles trajes
orientais de gola alta que não deixam nada do corpo à mostra a não ser apetitosos
pedaços de coxas pelas fendas laterais, mas que - justos como uma tatuagem
sobre a pele - permitem adivinhar tudo de carnes para putaria que existe lá
dentro, ela atravessou o bar, um copo em cada mão, com a suavidade sanguíneo-brilhante de um Chevy 57 vermelho com pneus faixa branca
rodando borracha queimada pelo asfalto sol/luar da Rota 66.
Sentou-se à minha frente,
empurrou um copo em minha direção, olhos oblíquos negros e incandescentes sorrindo
maliciosos como uma fria alma assassina sem sentimentos. Mestiça, sem dúvida. O
melhor de dois mundos, pensei. Conservadores histéricos viviam berrando sobre
um tal “perigo amarelo”. Foda-se, sempre simpatizei com os liberais.
- Veja se esse é do agrado
de seu requintado paladar.
Entornei a dose garganta adentro
de uma vez.
Ela me seguiu.
Bebia como um homem, como
se costuma dizer, mas aquele monumental par de peitos espetando biquinhos duros
por baixo da finíssima seda vermelha não deixava dúvidas: era fêmea para se
comer com fome de nunca acabar, depois arrotar e ainda deixar restos no prato
com remorsos e tristezas. Gostosa como um sorvete de casquinha sabor dólar.
- Um homem que consegue
submeter uma mulher a fazer sexo oral à vista de todos num local público, deve
ter uma personalidade dominante, não?
- Ah, você viu? Não pensei
que tivesse mais ninguém aqui além do Jerry Lee. Questão de jeito: de uma forma
ou de outra todas obedecem, todas gostam de obedecer. Cadelas querem pontapés
para poder lamber a sola suja do sapato que as chuta. É da natureza delas, nada
demais.
- Poucos homens têm coragem
de expor tão abertamente pensamentos tão exóticos em relação à forma de se
tratar as mulheres.
- O mundo é uma selva,
irmã, onde uns devoram e outros são devorados. Eu escolhi estar do lado dos que
devoram.
- Filosofia de vida
interessante.
Ela sorria.
Não gostei.
- Interessante é o seu cu.
Você não passa de uma burguesinha saída sabe-se lá de onde, que resolve vir uma
noite se divertir em Golden Crap e tirar uma com a cara de um sujeito meio
bêbado, só porque ele tem coragem de dizer o que pensa.
- De modo algum. Fiquei
fascinada pela maneira como tratou aquela moça, por isso e pelo que disse o barman me interessei em falar com você.
John Doe, não?
- Por falar nisso, vamos
deixar uma coisa bem clara, minha cara: por absoluto desinteresse, acabo de dar
um pé na bunda daquela rameira, mesmo ela sendo de trepar como uma ensandecida
máquina de foder. Obrigado pela sua caridade cristã, mas prefiro que a gente
fique na bebida que você está pagando. Aliás, isso é que é whisky, não aquela porcaria com que me embebedo. Sabe por que whisky é melhor do que chupar boceta?
Porque whisky te dá dor de cabeça no
máximo só no dia seguinte. Posso pedir mais um?
- Quantos aguentar.
Uma mulher com um corpo
desses e disposta a pagar whisky do
bom enquanto eu quisesse? Precisava lembrar de algum dia rever meus conceitos
sobre a não existência de Deus.
- Estalajadeiro! Sirva-me
em plenitude da água da saciedade que aplaca o fogo da insatisfação, pois
finalmente o deus do álcool e da nicotina olhou com consideração para esse seu
mais fiel dos fiéis e decidiu livrá-lo, pelo menos por esta noite, da
contagiosa imbecilidade dos idiotas que se esmeram pela vida em querer oferecer
cadáveres inutilmente saudáveis ao apetite amoral dos vermes da terra.
Só vendo a cara de bunda do
Jerry Lee quando deixou a garrafa de Cutty
Sark na mesa.
Ela sorria divertida.
Eu estava agradando.
- Tem onde dormir?
- Acabo de ser despejado
por absoluta mesquinharia do canalha do meu senhorio.
- Quanto tempo ficou sem
pagar?
- Coisa de nada, uns três meses. E o puto
ainda ficou com todas as minhas roupas.
- Aluguei um quarto em um
hotel aqui perto. Tenho coisas lá para te mostrar que podem te interessar
muito.
- Impossível deixar de
dizer que você é muito gostosa, baby,
mas mesmo com esse corpo espetacular e a não ser que você seja vendedora da
Avon, não tem nada que possa me mostrar que seja novidade.
- Nunca se sabe.
- E se é de drogas que está
falando, está perdendo seu tempo. As minhas duas são essas: nicotina e álcool,
com as quais me suicido voluntariamente e pelas quais, além do preço, mesmo sem
trabalhar, pago caralhadas de impostos.
- Sim, é uma droga que
estou oferecendo, mas uma diferente de todas as que você conheceu ou pensa que
conhece. Ela pode ser consumida do jeito que você decidir. E está disponível
exatamente debaixo da seda desse cheongsam.
- Péra aí...
- Sabe dos efeitos que a
carne feminina disponível e desfrutável para tudo, absolutamente para tudo,
pode produzir na alma de um homem? Já experimentou essa sensação de poder e
domínio absolutos sobre o corpo de uma mulher?
Viramos mais uma dose cada
um. Batemos os copos na madeira da mesa.
- Olha, não bebo nada de
garrafa sem rótulo. O teu nome é...
- Ninguém.
Agarrei-a violento pela
seda vermelha e fechei a mão em ameaça de murro na boca.
- Acho que posso jogar esse
jogo.
- Acho que estamos
começando a ir para o mesmo lugar – ela disse com um sorriso que era provocação
e desafio.
Well, afinal eu havia chegado a
esse ponto da existência humana por teimosamente insistir em parar com a testa
as locomotivas que a vida colocava à minha frente.
- Podemos levar o Cutty Sark?
- Nada seria completo sem
ele.
Chuva menos forte, mas
gelada como um beijo de cadáver.
“Chelsea Hotel”:
Nome muito pretensioso
brilhando brega naquele néon verde e vermelho de pastelaria chinesa de pobre.
Não sei quantas vezes passei na frente do amarelado prédio decadente, mas nunca
havia entrado naquele pulgueiro. A velhota na recepção tinha uma aparência
convidativa e simpática de Bette Davis em "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?" Entregou a chave com uma careta de nojo e deu um pequeno arroto: quase
consegui adivinhar a marca do gim barato que a bruxa devia estar entornando
desde o café da manhã.
“Quando dorme a vida, morre o vício”.
Por que diabos alguém iria
escrever um troço desses na entrada de uma escadaria de hotel de última
categoria?
Onde você está se metendo
John Doe?
Improviso do cacete o “Bird” faria com o que viria daqui para
frente.
A lâmpada agonizante no
teto não conseguia esconder o cenário de vendaval. Como um espaço tão pequeno
conseguia conter tanta desordem? Meias de nylon,
calcinhas e sutiãs pendurados para secar num barbante esticado, roupas jogadas
aqui e ali, as de dentro do armário com as portas abertas não exatamente
arrumadas, a cama parecia ter sido palco de uma briga de cachorros assassinos,
no centro do colchão uma considerável mancha úmida ainda recente, os tocos de
cigarro que não encontraram lugar nos cinzeiros repletos queimaram tranquilas
trilhas enegrecidas na madeira dos criados-mudos.
Uma luz mais branca acesa.
Ela saiu do banheiro carregando dois copos de geleia.
- Sorry, são os únicos que tenho.
- Com Cutty Sark dentro qualquer vidro vira cristal alemão.
- Conhece-se a potência de
um homem pela intensidade de sua imaginação, dizia sempre minha mãe chinesa.
- Devia ser uma mulher
muito inteligente.
- Sim, prostituta em Hong
Kong. Conseguiu convencer um marinheiro trouxa de que ele era meu pai. Ela
morreu uns anos depois, vitimada por pertinaz moléstia. O bêbado escroto até
que tentou me criar bem, mas depois que fui expulsa de duas escolas
particulares por infrações disciplinares diversas geralmente envolvendo
questões sexuais com estudantes e professores de ambos os sexos, ele
decidiu também ter a parte dele. Depois que me estuprou, dei uma facada nele
enquanto dormia e fugi. Nem sei se está vivo.
- Parece uma vida intensa
para alguém com tão pouca idade.
Despejamos duas doses
garganta abaixo.
No instante em que eu
reabastecia os copos, não sei como ela livrou-se do vestido, o tal de cheongsam.
Meus olhos quase pularam
para fora da cabeça quando a vi nua.
Seu corpo tinha várias
queimaduras - cigarro, coisas quentes, eletricidade, sei lá - especialmente nos
seios. Parecia ter sido atacada por um enxame de abelhas: coberta por marcas de
agulhas, mas nada que se assemelhasse a consumo de drogas. Contusões de cores
diversas no pescoço, punhos e tornozelos, como se tivesse ficado amarrada por
muito tempo. As coxas cobertas por vergões roxo-azulados. A ausência total de
pelos na boceta dava um aspecto infantil a seu sexo que brilhava dilatado como
se houvesse sido espancado: os lábios tão inchados que a abertura de sua racha tão
fechada era só um traço vertical quase invisível como se estivesse cicatrizada
depois de costurada (será que não o foi alguma vez?). Óbvios riscos vermelhos,
chicotadas sem dúvida, formavam um desenho enlouquecido por toda a extensão de
sua pele branquíssima. Uma considerável coleção de cortes sabe-se lá feitos com
o que. Algumas cicatrizes permanentes em formatos diversos.
Já ouvira falar de pessoas
que se automutilavam, mas ela não podia ter feito todo aquele estrago sozinha.
- E qual é a triste
história de sua vida baby?
- Pode olhar à vontade. Não
gosto de ter segredos para os homens que me veem nua. É a história de minha
vida que gosto de trazer escrita na pele do meu corpo. Apenas uma mulher
totalmente depravada, uma ninfomaníaca sem auto estima e que não conhece
limites quanto à dor que pode tolerar. Mas não se preocupe, não sou uma vítima
desamparada. A escolha dos que vão escrever essa história é minha, só minha.
- Pelo jeito, todos fugidos
do hospício.
- Na verdade não. Caras
normais que cruzam por você na rua e para quem não se dá a mínima.
Passeava a comprida unha
vermelha do indicador pelas marcas do corpo com a indiferença de um guia
turístico de necrotério narrando uma autópsia.
- Um trompetista branco de jazz viciado em heroína que cantava
baixinho com a voz triste de um anjo chorando; um vendedor de seguros de
Springfield casado e pai de três filhos lindos; um homem com um braço só que
assassinou a mulher de um médico; um rapaz com cara de menino de histórias em
quadrinhos, de família católica milionária, que diz que um dia vai ser
presidente do país. Você é o meu primeiro fracassado. Prefiro ser jade, mesmo partido, a ser tijolo, ainda que intacto.
-
Mais filosofia da mãe puta?
-
Não, Confúcio.
-
Ah sei, como dizemos aqui: melhor ser cabeça de sardinha do que cu de baleia.
-
Algum filósofo que eu deva conhecer?
-
Não, um bookmaker amigo meu a quem
devo uma considerável quantia.
Ela
riu com a dissimulada perversidade do impiedoso e tirânico Imperador Ming
ordenando a destruição do planeta Terra.
-
Dizem que os sociopatas geralmente são inexplicavelmente simpáticos.
Fodam-se copos de vidro ou
de cristal alemão, agora eu bebia direto do gargalo. Ela tomou a garrafa de
minha mão e me imitou.
(1)"Meu nome é ninguém",
Luiz Reis, Haroldo Barbosa e Nazareno de Brito