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Foto: Elena & Vitaly Vasilieva |
Well: era uma vez um
cara chamado André que não sabia se o pai chamava Jonas ou João, que tinha um
irmão mais novo chamado Pedro, que trabalhava num negócio de peixes com dois
caras chamados Tiago & João (filhos de um cara chamado Zebedeu que também
tinha um negócio de peixes) & que com um amigo João, foi aluno de outro
João & junto com esses caras & mais outros caras formaram uma patota em
torno de um carinha estranhíssimo que falava coisas muito estranhíssimas, de
quem tornou-se um dos melhores amigos & como adorava falar mais do que a
boca, começou a repetir as coisas estranhíssimas que o carinha de quem era
amigo falava, envolveu-se num monte de confusões, foi perseguido, atacado por multidões,
escapou de ser preso & julgado muitas vezes, tinha sempre anjos &
demônios ao seu lado.
E o que Rouge tinha a ver com essa história de pobres cheirando a peixe,
mais cheia de joões do que a vida de dribles do Garrincha?
O caso é que esse tal de André, um dos principais discípulos de
Cristo, protetor dos pescadores,
mineradores, açougueiros & fazedores de cordas, invocado na proteção contra
a gota, dores de garganta, tosse & pelos casais com problema de
infertilidade, quando foi capturado por Nero, na maior ”máscara” desse mundo
decidiu dizer que queria porque queria morrer numa cruz diferente da de Jesus.
Os romanos, que adoravam esse tipo de insolência, providenciaram correndinho
uma cruz em forma de xis, onde André, contentíssimo, sofreu por dois dias até morrer
felicíssimo.
O "X" negro no meio da sala, uma cruz de Santo André, um
verdadeiro ícone de delícias & perversidades para os praticantes de
sadomasoquismo & Rouge, nua aos olhares de todos, amarrada, espera,
latejando em emoção & em ansiedade, pela primeira dor do suplício pela flagelação.
§
Noite quente e úmida como sua boceta.
A surpresa de um invasor frio elétrico percorreu-lhe a espinha quando
surpreendeu a visita do pensamento obsceno sobre o forno entre suas pernas. Uma
estranha sensação de formigamento delicioso entre pernas ao cruzar as coxas no
banco de trás do táxi. Um tanto de incômodo, mas não tinha como evitar a quente
umidade das suas secreções de fêmea que lhe encharcavam a calcinha.
O velho bairro residencial, periferia, ruas quietas com postes de luz
monótonos & as nada novidadeiras apagadas casas baixas — no máximo sobrados
— antigas de sempre.
Já tarde da noite para quem acorda cedo, mas ainda não conseguiu fechar
os olhos.
Porém, o destino nunca dorme.
O casarão iluminado
em fotográfico amarelo pálido, como cenário de filme de terror barato, não
tinha qualquer identificação.
Não era preciso.
Rouge sabia que ali
ficava o "Kýrios".
Atravessada a pesada
porta de madeira, a senha sussurrada à recepcionista com cara de manicure, o
corredor cuja pouca iluminação não conseguia disfarçar o cheiro de poeira.
Espera todos saírem
do vestiário antes de se despir. Passa os dedos queimando de febre de
insatisfação pelos cabelos pintados de vermelho incomodamente luxuriosos como
as chamas de uma Ferrari incendiada antes de acomodar a meia máscara dourada no
rosto.
"É fácil
encontrar demônios: é que, além da falta de coragem as pessoas geralmente não
sabem o que devem procurar", Lord Lupus sentenciara, irônico como sempre,
antes de dar-lhe as costas.
("Do Delírio ao
Êxtase").
O título viera na
temperatura exata do primeiro gole de champanhe após, o gozo com um amante bonitão
qualquer de expressão inexpressiva.
Alta badalação, a noite
de abertura da exposição — série propositalmente descompromissada de snapshots
de casais nus fazendo sexo — mais um sucesso de público & crítica.
Quem o dono daquela
ironia debochada que sorria complacente para o título na capa do catálogo?
"Interessante —
as palavras vinham enfumaçadas pela nicotina do cigarro — mas pura bobice vazia
disfarçada em pernosticismo intelectualoide.
Parece esse modismo de filosofia de para-choque de caminhão disfarçada
de sabedoria orientaloide de pasteleiro de olho puxado que os ricos usam para
dizer que não deve haver apego aos bens materiais e que os pobres imitam para
parecerem pedantes... sem bens materiais".
Por que a total
abulia ante o atrevimento daqueles olhos que pareciam avermelhar-se na audácia
da descortesia? Justo ela, que sempre se soube bonita e cuidava ter aparência
elegante & refinada para conseguir levar para a cama os homens que
escolhia, com a regularidade de um trem inglês.
"Rouge, não?
Você, Rouge, parece um enfeite de bolo de aniversário, mas lobos não comem açúcar.
Eles precisam de carne para manter afiadas as presas. Já foi comida muitas
vezes, imagino, mas nunca foi devorada. O lobo, antes de atacar, escolhe
cuidadosamnete o sangue que quer derramar & a carne que deseja estraçalhar,
porque é capaz de reconhecer no meio de qualquer rebanho aquela ovelha que
prefere ser devorada a viver seu medíocre destino de ovelha. Ela não conseguirá
escapar, mesmo escondendo-se atrás de fotografias eróticas socialmente
aceitáveis, simplesmente porque não pode... nem deseja ser poupada".
Lord Lupus elegera
Rouge como sua próxima vítima, mas ela não poderia falhar, precisava provar-se
digna de ser acolhida como carne de sacrifício.
Chegou perto, mas a entrada em entrega no covil da fera lhe havia sido
negada, pois...ovelhas, como lobos, perdem a pele mas... não perdem o vício) Antes
dele, havia ganido como uma cadela no cio a cada vez que abrira as pernas para
homens, mas agora desejava uivar como uma loba violada entre mordidas de
caninos sedentos por sangue. Iria provar-lhe o contrário: depois dessa noite,
finalmente se sentiria viva quando o sol nascesse amanhã. Queria ser a vingança
da super prostituta que cavalga a besta.
§
Passos leves com cadência de ataque animal às suas costas. Não se atreve
a olhar, surgiu sem mais como chuva de repente em dia ensolarado, mas sem dúvida,
é um nariz que se introduz no rego de sua bunda e se esfrega ali por um
momento. Descompassada respiração quente e úmida contra seu mais interditado
buraco. Uma língua quente como fogo, viva & molhada como um peixe, pesquisa
intrusa cada dobra de suas pregas & impaciente procura espetar a entrada.
Concordara com as regras: não haveria penetração, mas até que a compra se
concretizasse, seria carne de caça desfrutável à degustação de qualquer homem
ou mulher na casa.
Separa as nádegas & faz força para abrir-se, alargar-se & mexe
os quadris demonstrando aceitação. Suspira quando os movimentos circulares
repetem-se com perícia naquele ponto tão especial & sensível. A saliva
farta que escorre pegajosa queimando suas coxas demonstra a intensa luxúria de
quem chupa seu rabo. O grunhido de satisfação que escuta é, sem dúvida, feminino.
Porém, quando se volta, ninguém. Ainda só no vestiário. Um estranho cheiro de
carne no ar. Será esse o aroma do tormento dos prazeres proibidos? A lua de lá de
fora de repente nasce cheia & nova nela & um luar estranho parece
brilhar do interior de meu sexo exposto em inocente infantilidade pela ausência
de pelos que lhe foi ordenada. Sente-se estranhamente orgulhosa em ostentar-se
obscena & sem escrúpulos. Apenas uma pequena transpiração entre seus seios
pode denunciar o medo que ainda sente ante o não conhecido que a partir de
agora pode apresentar-se a qualquer instante. As cédulas de dinheiro começam a
umedecer-se no calor do suor nervoso de sua mão.
Caminha deixando apenas uma névoa perfumada para trás.
Iluminação indefinível. Porém, estranhamente, ao mesmo tempo em que o
ambiente parece muito escuro, há uma luminosidade brilhante de cor
indescritível que permite enxergar tudo em volta — apesar das nuvens
enlouquecidas da fumaça dos cigarros — com a clareza demente da consciência de
um alucinado. A música, algo hipnótico, quase inaudível, escorregava insinuante
ouvido adentro, fazendo o sangue dançar leve, ritmado, pelas veias do crânio de
Rouge.
Um vulto branco, redondo, enorme, uma baleia bípede, cresce lento em
direção a ela como se rolasse em silêncio pelo chão. O rosto envelhecido, cheio
de buracos que a maquiagem pesada escorrendo pelo suor viscoso não consegue
esconder, destaca-se enojante. O baton vulgar começa a falar.
— Eu sou Moby Dyke. Seja bem vinda por sua conta & risco ao paraíso
onde o fogo do inferno arde sempre sem queimar. Apenas para aqueles que sabem
brincar com o fogo, é claro. Aqui a queda não tem fim. É só a delícia de cair
sempre & sempre. Aqui o teatro do sonho vira realidade.
O farisaico sorriso
rechonchudo da loira falsa incomoda quase mais do que a transpiração suando
perfume que não disfarça o cheiro suburbano de nascença. Não estava interessada
em discurso vazio disfarçado em pseudo filosofia barata, como tinha aprendido a
desprezar com Lord Lupus. Entrega o dinheiro da maneira mais dissimulada
possível. O instante é imperceptível
para que sequer tente evitar o beijo faminto & selvagem. A língua veio para
fora da boca da gorda, balançada animalescamente, ainda com sinais de saliva
grossa gotejante. Tentou não virar o rosto com uma careta de nojo. Rouge reconhece
o sabor do próprio cu na língua da cetácea adiposa: “Repugnante vadia nojenta!”,
consegue apenas pensar.
A gordurosa
meretriz, no entanto, não estava disposta a abrir mão do ensaiado discurso de
mercantilismo prostituinte disfarçado em literatice barata.
— O "Kýrios" é onde o burlesco
junta-se ao imundo, onde a perversidade corrói o caráter & o deboche
deprava as consciências, onde as almas cansadas e vacilantes vêm em busca de
alívio. Todos estão aqui para sucumbir às aberrações, às perversões, às máculas
do corpo, aos vícios, à malícia sem dissimulação. Entregam-se aos beijos e
descaminhos das paixões estéreis. As bocas dos sexos de homens e mulheres aqui
vomitam todos os espectros do império do prazer. A maciez do veludo do
subterrâneo das mais baixas paixões humanas reveste cada centímetro da minha
mansão das trevas interiores.
Conduzida com
delicadeza estudada, sabe que está sendo exibida. Carne humana, feminina e masculina, despida
ou quase, brilha em todos os cantos contorcida & retorcida em meio a
flagelações, gritos de transpiração gordurosa de prazer, ódio, gozo, medo,
tristeza, algazarra de lamentações, de gemidos de tudo e de todos, sorrisos de
deboche ou de agradecimento, lágrimas iguais e diferentes.
Réptil calafrio
rastejou por sua espinha abaixo, quando ouviu a gargalhada debochada em seu
ouvido.
Rapaz até bonito,
andando tontamente veio em sua direção & rente a seu nariz salivou um perverso
sorriso inundado de baba grossa com cheiro de mau hálito.
— Quem matou Bambi só
porque ele era um veadinho?
O rapaz dá uma lambida
asquerosa na face de Rouge. Risadinha histérica demente.
— Não o leve muito a
sério. A gargalhada do diabo é tão eterna quanto teu sofrimento será no
paraíso, comentou com enfado a obesa marafona.
Duas morenas lindas,
parecidíssimas. Qualquer um podia jurar que eram gêmeas. Juramento
desnecessário. Falaram em sotaque enrolado como numa língua desconhecida.
— Colheradas de
amor? É a geleia de pérolas.
Rouge sabia que aquele líquido branco, viscoso & brilhante que lhe
era oferecido em colheres de prata & que elas devoravam gulosamente como
crianças travessas lambuzando-se com sorvete era esperma. Fêmea adivinha porra
antes do cheiro. Apesar do asco, sabia não ser adequado recusar & saboreou
com a satisfação que pôde encontrar com o pensamento voltado a Lord Lupus,
porém, o suco do macho ansiado lhe havia sido interditado pelo mesmo desprezo
que exterminara as borboletas de seu estômago.
— Sabe que um homem
normal tem somente nove centímetros cúbicos de esporra em cada gozada? —
perguntou esclarecendo Moby Dyke.
§
Finalmente o palco.
Uma placa com o número 6 é pendurada em seu pescoço. É colocada junto a outras
três mulheres & dois homens, como ela, nus. Sem imodéstia, Rouge soube-se
imediatamente linda com seu corpo perfeito & bem cuidado, ante o espetáculo
não tão harmônico mostrado pelas carnes despidas das outras quatro fêmeas, como
ela & os homens, expostas como gado. A iluminação intensa só conforta
depois que os olhos de acostumam. Uma escuridão amarelada tomava conta do
ambiente iluminado por uma infinidade de velas de todas as cores, formatos
& tamanhos fedendo a cera derretida. Muita gente em pé, fumando, bebendo,
falando alto & gargalhando infeliz. Pessoas sós ou em grupos em sofás de
couro vermelho umedecidos, brilhantes de transpiração de carnes humanas.
— Hoje vai ser o sábado negro da sua vida. Não vá me trazer problemas, mulherzinha rica,
ameaçou detrás da luz a voz azeda & estúpida como um limão cego de Moby
Dyke, que a partir daquele instante comandaria com deboche crescente &
cinismo estudado o leilão de escravos.
— Dominadores e dommes:
é com grande orgulho que o "Kýrios", a unha infeccionada do dedo ruim
enfiado fundo na ferida do cu do falso podre moralismo de nossa sociedade,
promove hoje mais um de seus famosos leilões de escravos. Temos em oferta carne
da melhor qualidade em todos os estilos, formatos, cores & idades, ansiosa para
submeter-se aos seus desejos & caprichos: são seres inferiorizados na
ansiedade pela humilhação, a quem não é mais permitido ter tempo para ter medo
do medo. Do Gênesis ao Apocalipse, passando por céu & purgatório, vamos
conduzí-los ao décimo sétimo dos infernos. A partir de agora a regra no
zoológico é: não provoque as feras & alimente os animais.
As gargalhadas
escorreram nojentas como saliva de escarro pela alma de Rouge, que tentava
focar em pensamento a face de Lord Lupus, mas estranhamente a figura em seus olhos
fechados insistia em dar-lhe as costas.
Sessenta por cento
para a casa, quarenta por cento para a peça, eram as regras, esclarecera a pançuda
gigolette pelo telefone. Como se dinheiro fosse o que nunca foi para ela, Rouge:
um problema. Se soubessem o quanto ela se sentia menos que barata, sem valor
naquela noite, que facilmente pagaria cem vezes o preço do que eles pensavam
estar comprando. Tanto que se oferecera para participar gratuitamente,
recusando pagamentos.
Como um rebanho de possessos,
alguns homens e mulheres apressaram-se em subir ao palco. Os mais pesados e
desprezíveis insultos eram dirigidos individual ou coletivamente aos aos
escravos. Mãos ansiosas, animalescas, passeavam sem cuidados &
intrometiam-se canibais por todos os recantos das carnes franqueadas ao público
exame degenerado dos corpos. A ordem para que se ajoelhassem & colocassem
as mãos atrás das nucas. Jatos quentes de urina em seu rosto: Rouge sabe que
está começando a sonhar seu pesado pesadelo de ferro.
— Agora essas almas
infelizes, os recrutas do exército da putaria, vão voar por sobre o rio da
passagem da morte até a vida de delícias no inferno: que comecem os lances!,
comandou de algum ponto a voz da paquidérmica loira.
As ofertas em voz
alta começaram. Um entusiasmado e competitivo, às vezes agressivo, alarido
medieval dominou o ambiente. Seguindo alguma ilógica imponderabilidade, cada
escravo era, a intervalos, exibido à
frente dos demais. Números significando quantias em dinheiro era berrados com
histeria. As cifras cresciam com entusiasmo demente até que, quando não havia
superação, Moby Dyke sentenciava: "Vendido para uma noite de total
disponibilidade o escravo número..."
Rouge não sabia
precisar por quanto tempo se desenvolveu aquele ciclo de fúria psicótica.
Apenas teve noção do passar do tempo quando escutou alguns minutos de
estranhíssimo silêncio & deu-se conta de que estava sozinha no palco.
— Vamos lá, minha gente: essa joia de cabelos vermelhos ostenta carnes
deliciosas capazes de despertar os mais pervertidos desejos sexuais até de um
morto agradecido. Mestres da desordem, sacerdotes do medo: sabemos que a
verdade não nutre nenhuma simpatia pelo que é simpático, mas dentro desse
corpo, é cultivado um jardim selvagem de sacanagens depravadas. O jovem suco
das frutas podres, a nata da podridão da nossa melhor sociedade jorra de dentro
dessa boceta que sorri com graça sem
graça de mocinha de novela, posso garantir. Ninguém se habilita a ser por uma
noite o imperador do porão da total escuridão dessa alma submissa?
O pregão de Moby Dyke não sensibilizava nem a mudez das paredes.
Para a humilhação desse silêncio de desprezo que lhe era gritado no
rosto Rouge não estava preparada. Fechou os olhos tentando não chorar e mais
uma vez viu o vulto de Lord Lupus dando-lhe as costas, porém, agora, podia
perceber que ele sorria irônico.
— O lance mínimo, alguém?
A expressão hesitante de aceitação apenas incomodou o silêncio. Depois
eram risinhos indefinidos de zombaria
Até bonito como qualquer amante, porém, sem graça,
masculinidade esfuziante com visual de galã de meia idade de filme romântico da
sessão da tarde. Nada do que Rouge havia sonhado. Tentou um chicote, mas
demonstrou falta de intimidade até para simplesmente empunhá-lo. Passou os
olhos por uma chibata & decidiu não arriscar. O paddle, acabou sendo
eleito. Para os amadores ou iniciantes é a própria piscina de criança: dá pé
pra todo mundo.
Amarrada à cruz de Santo André, apesar de tudo, os peitos inchando, se
enchendo de tesão. Experimentaria um clímax intenso ao
sentir o corpo contorcer-se, cortado ao meio pela flagelação?
Relembrou, palavra por palavra o que Lord Lupus lhe
dissera um dia.
"Quando desamparada, indefesa, corpo nu vulnerável
em espera, a consciência é o pior inimigo da fêmea flagelada. Nunca deve
permitir que ela se instale. Não deve lutar, apenas piora a situação. Quando o
couro do chicote morder a carne deve deixar o fluxo de dor fluir através dela,
simplesmente absorvendo os golpes, usufruindo do prazer. Mas isso deve ser
feito logo na primeira chibatada, pois é essa, torturante, que queimará para
sempre em sua memória, é a que corta para sempre a pele imaculada de sua alma.
E depois, gritar, gritar em agonia frenática é tudo o quanto deseja & tudo
o que o sádico quer ouvir"
A primeira pancada numa nádega. Apenas a inevitável dor protocolar.
Risadas. A outra nádega é premiada com a mesma imperícia. Em seguida, o ombro
direito, depois o esquerdo. As gargalhadas explodiram. Ao suco de morango, a
plateia daquele circo de horrores respondia catarro. Mesmo de costas sentia a
plateia tensa, ofegante, obviamente muito insatisfeita. A frase em uma voz
feminina esganiçada em deboche —“"Essa puta de butique é uma vadia de uma
cadela hipócrita!"” — detonou os gritos & zombarias, como se ela
houvesse quebrado todas as regras escritas e não escritas do lugar.
Não soube o que aconteceu ao galã de brechó de grife, nem quem a liberou
do "X".
Agora eram vaias e alguns objetos indefinidos atirados.
Rouge correu cambaleante para o vestiário.
§
— Não fique chateada com ele, é alguém que também acha que pode enxergar
seu demônio interior pela segurança covarde de um telescópio, por falta de
coragem para encará-lo face a face.
Moby Dyke agora era quase maternal em seu tom.
— Nem se aborreça demais com os outros: animais dominantes sentem o
cheiro da mulher que tem medo e, como lobos, se afastam. Não se constrói uma
fêmea com coragem de render-se à submissão de corpo & alma sobre as ruínas
de uma mulher covarde. A essas, sem entrega na alma, é reservado o destino de
purgarem como Anima Sola no purgatório da prática do sexo fácil, que queima mas
não consome.
Tentou interromper, mas estava paralisada pela decepção.
— O único milagre em que acredito
é o da multiplicação das trinta moedas da hipocrisia, que venho realizado desde
os treze anos usando o buraco que tenho no meio das pernas. E o outro lá detrás
também, claro. Submissas não nascem em árvores, embora mulheres como você
acreditem que basta pendurarem-se nuas num galho gemendo tesões fáceis de
filminho pornô. Elas devem entregar-se incondicionalmente de alma livre, para
serem cultivadas desde a semente por um verdadeiro dominador. É perigoso
passear cantando nessa floresta, quando não se conhece a canção correta.
Ódio intenso por
constatar sua verdade mais secreta tão facilmente adivinhada & exposta por
uma completa estranha, Rouge colocou o tanto que pôde do vermelho dos cabelos
na tinta do rosto e respondeu com fúria recalcada que, se quisesse ouvir
conselhos de vovózinha o teria feito na idade correta. Resoluta estendeu a mão
& recebeu de Moby Dyke o rolo de filme.
A loira gorda
colocou toda a compaixão possível na voz, enquanto se retirava gargalhando.
— Por que a famosa Rouge não experimenta usar o sadomasoquismo como tema
em suas fotografias? Pode ser que ajude.!
Automatismo bêbado na rapidez para se vestir, Rouge decide rejeitar a comodidade e a segurança e elege caminhar lado a lado
com sua decepção pelas calçadas noturnas de pouca gente até encontrar um táxi.
Na esquina, três cachorros excitados rosnando dentes ameaçadores cercam
uma cadela assustada. Crianças da noite brincando de humanos, pensa. Só então
dá-se conta de que ainda está mascarada. Joga o disfarce na calçada. Atraídos
pelo brilho dourado, os cães se aproximam, cheiram, desprezam sua máscara &
voltam a assediar a cadela.
A explosão de lágrimas é abundante.
O táxi é magia que acontece quando, mesmo sem crer, mais precisamos.
§
Indefinível estranha criatura, nua, cabelos desaparecidos na vermelhidão
da lâmpada da câmara escura. Não podia culpar totalmente a loira: afinal,
faltara-lhe o que fotografar. Escolheu o shot
mais aceitável: nada do enlouquecido desenho de hematomas e vergões que
idealizara. Apenas quatro ridículas, tímidas caricaturais marcas simétricas,
mas, ainda assim... marcas.
Amanhecendo.
Do rádio no quarto da empregada ouve a voz de Dalva de
Oliveira: "Que será da minha vida sem o teu amor/Da minha boca sem os
beijos teus/Da minha alma sem o teu calor?/Que será da luz difusa do abajur lilás/Se
nunca mais vier a iluminar/Outras noites iguais?/Procurar uma nova ilusão não
sei..."
Não, não vai querer o café da manhã agora. Algo ainda a
fazer & depois um banho.
Transfere a foto para o computador, anexa-a ao correio
eletrônico de Lord Lupus & a remete preferindo calar legenda, lembrando o
cinismo ácido do dominador: "Uma mulher fala mais do que mil palavras,
mesmo quando consegue pronunciar apenas uma".
A água na temperatura exata não lava a inquietação nem
aquece a insegurança.
Ainda enxugando-se ouviu o alarme de mensagem recebida.
Os dedos gelados da mão do medo apertaram-lhe o pescoço
& Rouge não conseguiu respirar ainda por um tempo, depois de ler a
mensagem: "Teu corpo desperta apetites, mas lobos não comem carne
mastigada; isso é cardápio para vira latas famintos de sarjeta".
Cambaleante, caminhou em direção ao espelho, mirou-se nua
e no reflexo enxergou um vulto sombrio ao mesmo tempo estranho e familiar ao
lado de suas carnes despidas brilhando na pouca iluminação do quarto.
Levou a mão até a boceta, acariciou-se por um minuto
inútil, a umidade de fêmea não a visitou.
Rouge percebeu que nunca mais, como havia feito até ali,
conseguiria fingir-se feliz à vida com a mesma naturalidade com que se
contentava com insuficientes orgasmos de ocasião & que fingia tão intensos
a todos os amantes a quem, com tanta facilidade, abria as pernas.
Nunca encararia o seu demônio interior, embora ele
continuasse queimando como um incêndio de frustração dentro dela.
Passou os dedos em desconforto pela cabeça vermelha.
O tempo vencedor como sempre.
Talvez a hora de deixar os cabelos mostrarem a sua cor
real.
Master
ResponderExcluirUm grande prazer sua visita ao meu blog. Retribuo com satisfação, principalmente pela oportunidade de encontrar alguém à minha altura. Apreciei muito suas narrativas, diferentes do que escrevo, mais detalhadas e precisas, muito excitantes e estimulantes. Manteremos contato com certeza, pois muito temos em comum e mais ainda a trocar e criar. Saudações sádicas e beijos inusitados.
Mariangela
... so good contar com tua presença & estímulo... tks... kisses... saudações em S&M... A Carne Sorri Na DOR
ResponderExcluirIrresistivel uma segunda mensagem, num domingo vadio, depois de algumaação, voce sabe do que eu estou falando querido Master. Entre uma e outra entrei no PC e resolvi te visitar outra vez. Em ação e, curiosamente pensando em minha proxima carta.
ResponderExcluirSaudações sadicas, beijos perigosos como gostamos
Mariangela