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Foto: Muffia |
“Há um lugar em Nova Orleans
Chamado a Casa do Sol Nascente
Que tem sido a ruína de muitos garotos ingênuos
E Deus sabe que eu, há muito tempo, fui um deles
Oh, mãe, diga a seus filhos
Para não fazerem o que eu fiz
Desperdiçar a vida em pecado e tristeza
Na Casa do Sol Nascente”
(“The House Of The Rising Sun”)
Era para ser apenas outra
sexta-feira óbvia.
Turma de encontrar em
boteco, na boca da noite depois do trabalho para jogar conversa mole fora.
Assalariados de médio para
baixo sempre com mês sobrando no ordenado. Nenhum especialmente boêmio, até
porque dinheiro para dificilmente restava. Mas quando sobrava, ia-se, só ou em
grupo. Afinal, de vez em quando, todos precisavam “trocar o óleo”.
Nesse cenário, coração
fedendo a sangue suado da Boca do Lixo, conheci o lugar.
— Vamos no “611”
da Rio Branco mesmo.
— Ôrra meu, de novo?
— E daí, a gente sempre
vai: é só subir a escada e em qualquer andar, em qualquer porta que abre tem
mulher dentro.
— Catso, acho que já
conheço todas as putas daquele prédio. Só de gonorreia peguei duas lá.
— Sem contar que aquilo
anda cheio de uma baianada do cacete ultimamente.
— Eu vou no “La
Licorne”.
— Qual é, meu, ganhou na
loteria?
— No bicho: deu veado na
cabeça.
— É o que mais dá nessa
terra ultimamente
As gargalhadas estrelaram
coloridas de artifício.
— Hoje ouvi uns bacanas lá
do serviço falando de um lugar novo aí todo cheio de coisa diferente pra rico.
— E o que tem de tão
diferente? Boceta cheira tudo igual.
— Sadomasoquismo.
— Que porra é essa?
— É aquele troço de gente
esquisita de roupa de couro, um dando chicotada no outro.
— Tô fora, meu: isso é
coisa de tarado.
— Sei lá, bacana gosta de
coisa extravagante.
— E tem quem paga pra
apanhar? A polícia come pobre na porrada de graça.
Mais risadas. Já um tanto
molhadas de cerveja.
— Onde fica essa porra?
— Na rua do Teatro de
Arena. Eles esqueceram um cartão em cima da mesa do café.
— Deixa eu ver: “Argentinum
Astrum”? Argentino é tudo filho da puta!
— É Latim — falou um que
tinha tempos de coroinha na infância — Quer dizer “Estrela Prateada”.
— Só burguês decadente
mesmo para gostar de um lugar com esse nome complicado metido à besta. Muito
pretensioso para ser utilizado por bêbados, putas e demais animais da noite —
esse gostava de se pensar intelectual do desespero esquerdizoide.
— Pra ser mais chique devia
ser “Silver Star” — disse outro que imaginava ser mais moderninho
fingir que sabia Inglês.
— Sei lá, eles falavam que
era “A Casa da Mulher Vermelha”.
— “A Casa da Mulher
Vermelha”? Desse lugar meus tios já me falavam há mais de quarenta anos
— comentou um bem mais velho, tropeçando língua enrolada a caminho do banheiro
imundo — Mas eu nunca fui nem sei onde fica.
— Deve ser caro pra
caralho.
— Eles diziam que é coisa
fechada. Super discreta.
— Eu vou torrar a grana do
bicho com as putas da alta da Laura lá no “La Licorne”. Quem vai?
— A gente não tá com tudo
isso, meu. Vamos no “611” mesmo.
— Você não vem?
A grana que eu havia
desviado do caixa da empresa estufava o bolso da calça. Já que o risco da
demissão na segunda era quase certo, melhor gastar o dinheiro em grande estilo.
— Tô morto. Vou pra casa
dormir.
Em São Paulo a gente tem um
infantiloide desleixo carinhoso com essas coisas. A Teodoro Baima, ao contrário
do que se pensa/diz, termina na Consolação e, com seu único estreito
quarteirão escuro, começa naquela rua da qual ninguém nunca lembra o
nome.
O barulhento “Redondo”
na esquina em frente ao Arena. Depois do boteco pé sujo um pouco adiante à direita,
os nada novidadeiros apagados prédios velhos de sempre.
Tarde da noite.
Mas o destino nunca dorme.
Ombros garoados caminhei
passos friorentos em direção ao começo.
O néon brilhando
irritantemente branco, quase prata, testemunhava sem engano: “Argentinum
Astrum”. Agora lembrava: o prédio era uma igrejinha antiga, abandonada
desde que me conhecia por gente.
— Prazer em vê-lo. Já era
esperado.
Apesar do verdor cômico
(não podia ser pintura, a pele dele era mesmo daquela incrível cor verde),
assustador: não só pelo monstruoso aspecto de criatura de Frankenstein, mas
pelo próprio tamanho, gigantesco, mesmo para alguém de boa estatura como eu.
Dois metros e tanto, alto como um deus de pedra. E lá em cima, ridiculamente
desproporcional, uma minúscula cabeça aquilina.
— Nunca estive aqui. Nem
sabia que vinha. Como “era esperado”?
O cara com cara de ave de
rapina silvou estranho quase como se sorrisse:
— Sou Aiwass e lhe dou as
boas vindas.
— Aqui é “A Casa da
Mulher Vermelha”?
— Não é o que diz o
luminoso. Mas importa o que pedem os corações dos que chegam. Queira entrar,
por favor.
Iluminação
indefinível. Porém, estranhamente, ao mesmo tempo em que o ambiente parecia
muito escuro, existia uma luminosidade brilhante de cor indescritível que
permitia enxergar tudo em volta — apesar das nuvens enlouquecidas da fumaça dos
cigarros — com a clareza demente da consciência de um alucinado. A música era
algo hipnótico, quase inaudível, que escorregava insinuante ouvido adentro
fazendo o sangue dançar leve, ritmado, pelas veias do crânio.
— O nosso desejo proibido é
como um anjo-fera em emboscada, com caninos arreganhados, saltados para fora da
boca salivosa, à espreita, pronto para atacar a nossa sanidade. É uma confissão
feita para o mais fundo da alma, sem qualquer intermediação moral ou censura.
Sorria absolutamente nua à
minha frente.
Branca, era toda branca:
cabelos, unhas, pelos púbicos, olhos, toda a carne, como se houvesse sido
mergulhada numa lata de tinta.
Apesar do aspecto exótico,
uma intrigante beleza de um mistério inquietante. Um corpo maravilhoso,
perfeito de sonho. Linda como nenhuma que jamais houvesse visto, exalava um
salgado aroma de excitação de fêmea.
— Eu sou Alva, principal
entre as Áureas, as brancas, as mais brilhantes. Se quiser, posso te apresentar
a casa.
— Não estou acostumado, não
conheço, nunca vi essas coisas.
— Paciência é para os que
não têm ambição. Mas você deve jurar jamais revelar a ninguém qualquer detalhe
do que vir aqui dentro, senão o castigo o atormentará enquanto viver.
A carne, feminina e
masculina, despida ou quase, brilhava em todos os cantos contorcida em meio a
gritos de transpiração gordurosa de prazer, ódio, gozo, medo, tristeza,
algazarra de lamentações, de gemidos de tudo e de todos, sorrisos de deboche ou
de agradecimento, lágrimas iguais e diferentes.
— O que essas pessoas
fizeram?
— A simples presença delas
aqui demonstra que elas sentem ou têm alguma culpa. E quem não tem nenhuma vem
aqui para encontrar alguma. Mas tudo o que verá aqui visa antes à conversão e
não à punição.
— Conversão?
— O sofrimento, ao
contrário do que pensa a maioria, não é apenas o caminho de busca que da dor
leva à contrição. Pode ser também a maravilhosa e infinita estrada de tijolos
dourados que leva à liberdade de consciência. Somos como pastores, não
torturadores ou carrascos. Podemos
começar?
O coração engasgado na
garganta.
Mas, cedo ou tarde, todos
têm de enfrentar seus demônios interiores.
— “Argentinum Astrum”
é um lugar acessível apenas a privilegiados. Muitos são chamados, poucos
escolhidos para usufruírem o êxtase único desse santuário do sexo. É o templo
do gozo sagrado que proporciona somente aos verdadeiros de alma a oportunidade
de saborearem as delícias de todas as cores do prazer.
Então eram mulheres negras.
Criaturas com todas as partes do corpo nu coloridas numa mesma tonalidade
brilhante:- o mais profundo negro. Ajoelhadas, deitadas, arrastando-se pelo
chão como animais em contorções inacreditáveis, rostos esfregados com violência
contra o solo, línguas lambendo sedentas o piso.
— Esse é o recanto das
ebúrneas, as que se dedicam aos jogos de humilhação, à abjeção do comportamento
mais primitivo de submissão vinculado à mais rasteira animalidade.
Depois eram mulheres
amarelas com corpos torturados por filetes de cera derretida que escorriam
generosos de velas sobre suas peles. Havia um estranho aroma quando ferros em
brasa ou pontas de cigarro deixavam marcas de queimaduras naquelas carnes quase
douradas.
— As amáras são peritas em
se ofertarem às dores dos perigos do mais sofisticado sadismo.
Agora eram mulheres nuas
impressionantemente azuis sendo mergulhadas à força em tanques de água,
mantidas no fundo quase até morrerem.
— No território das lazúlis
explora-se o orgasmo prolongado pelo desespero, na fronteira com a morte pela
ausência de respiração por afogamento ou por asfixia.
Acima do chão, como se
voassem, corpos roxos suspensos do teto, amarrados das maneiras mais
intrincadamente enlouquecidas eram supliciados como num circo de horrores.
— As purpúreas submetem-se
à intensa sensação de entrega pela impotência, ante a vulnerabilidade total
trazida pela imobilidade.
— Eu nunca imaginei...
— A imaginação na busca da
realização do prazer total não deve conhecer limites.
Aqui todos os corpos nus
eram como o de Alva: leitosamente brancos.
— Minhas irmãs, as áureas.
— E qual é a especialidade
das mulheres brancas como você?
— O branco é a soma de
todas as cores: estamos capacitadas a responder a qualquer exigência, a todos
os desejos.
Beijo
pegajoso de língua elétrica, embrulhando seus braços ao redor de mim. No abraço
corri as palmas das mãos pelos peitos firmes. Os bicos endureceram como
se fossem de pedra. Pelos olhos das pontas dos dedos podia enxergar
perfeitamente cada dobra aquecida da pele branca e lisa das nádegas sorridentes,
generosamente oferecidas. Com o dedo abusado sondei o rego e enfiei fundo e
decidido no pequeno buraco quente. Na ponta de meu dedo o contorno de cada
prega daquele cu arregaçado, engordurado de gozo. As membranas internas de seu
rabo respondiam inquietas a cada estímulo de meu dedo nervoso.
Sei lá por qual razão. A
vontade veio, só isso. Comecei a esbofeteá-la com fúria de maníaco.
Caída no chão, pernas
arreganhadas. Racha inchada pelo prazer
demente. Boceta reluzindo estilhaços de luminosidade refletindo com umidade as
luzes brilhantes do globo de cristal no teto. Sorriso estranho que nunca vi.
— Me use para seu prazer,
da maneira que quiser.
Lenta como cobra
desenrolou-se até ficar de bruços.
A chibata
horrenda chegou à minha mão como aparecida do nada.
Não sei de onde tirei perícia. O couro estapeava firmemente as bochechas
de sua bunda.
Dor, prazer, ansiedade, ou qualquer outro intenso estímulo. Emoções. Do
fundo de sua carne o aroma de dor prazerosa entrava intenso pelas minhas
narinas.
Todo golpe ardente correspondia a um grito que parecia de sofrimento.
Retorcida, gemia a cada impacto das delgadas tiras de couro, mas eram reações
de prazer.
Seus gritos eram de dor genuína.
Incendiadas faixas vermelhas foram se materializando deliciosas em sua
pele branca. A pálida carne quente, agora vermelha, parecia estar pegando fogo.
Sua bunda era uma adorável luminosa sombra rosa avermelhada naquela iluminação.
— Isso é muito bom, não pare, não pare, nunca!
Ofegava e gemia. Soluços alternados. Choro se transformando em
gargalhadas dementes de prazer. Carne trêmula. Fluido pegajoso escorrendo de
entre suas pernas.
Minha respiração pesada, apressada.
Uma onda quente de excitação subia do meio de minhas coxas, passeava
calorosa por minha espinha e estourava desavergonhada em meu rosto pingando
suor.
Encolhi-me o quanto pude, mas ela engoliu. Meu pau desapareceu dentro de
sua pequena boca de lábios brancos e estourou um gozo de inundação. Gulosamente
infantil caçou com a ponta da língua a gota brilhante de gosma branca que
escapava pelo canto esquerdo da boca, ameaçando escorrer para o queixo e
degustou o sabor da porra com uma perversidade moleque no sorriso.
Como era possível sentir tanto prazer em ferir alguém? Por que nunca tinha pensado numa coisa dessas como forma de obter
satisfação sexual?
Suas carnes brancas agora brilhavam gotejantes e vermelhas na fria luz
esbranquiçada da boate.
— Você está toda machucada, sangrando.
— Isso não o agrada?
Misteriosa e lentamente, à minha vista, todos os vergões, hematomas,
contusões, lacerações, cortes, a sangueira toda, tudo desapareceu. A pele
branca de seu corpo estava de novo impecavelmente linda, brilhando desejosa.
— Está gostando de conhecer as delícias da casa de todas as cores do
prazer?
— Mas eu não vi nada vermelho aqui dentro.
— Tem razão, aqui nada é ou pode ser vermelho: somente ela e o sangue do
prazer, que também dela provém.
— Ela quem?
Um silêncio de momento, depois as vozes em coro:
“Saudemos o eterno novo com nossos gritos de desvario, pois o tempo da
concórdia, do consenso do falso moralismo está terminado. É chegada a hora do
novo testamento do qual damos testemunho com a suprema decadência de nossa
total depravação. Nossa senhora, Vermícia Rainha”.
Na frente o gigantesco cara verde com cabeça de pássaro; depois um
indescritivelmente desordenado e maravilhoso cortejo sensual de mulheres nuas
de todas as cores (brancas, negras, amarelas, azuis e roxas); ao final, ela,
magnífica: grande, muito grande sem ser gorda, vermelha, incendiada da cabeça
aos pés, uma visão única e com três, três magníficos e apetitosos seios.
A repetição monótona do mantra continuava hipnótica: “Saudemos
o eterno novo com nossos gritos de desvario, pois o tempo da concórdia, do
consenso do falso moralismo está terminado. É chegada a hora do novo testamento
do qual damos testemunho com a suprema decadência de nossa total depravação.
Nossa senhora, Vermícia Rainha”.
Não percebi, mas todos no ambiente estavam ajoelhados encarando a mulher
vermelha em adoração.
Todos... menos eu.
Eu parecia ser o centro das atenções. Apesar da iluminação incerta,
podia perceber cada olho de cada pessoa grudado em minha pele. Conseguia ouvir
risadinhas dementes, rápidas, arremessadas contra mim.
A voz sanguínea interrogou com superioridade:
— Quem é esse que se atreve a manter-se em pé ante mim?
— Ele ainda não sabe Lady Vermícia, apenas não sabe, Senhora dos Três
Seios — a voz de Alva era respeitosa, mas trazia um tom de perversidade, pude
perceber.
— A ignorância não serve jamais de indulto à insolência.
Um sorriso pálido de
excitação me apavorava acima daqueles inexplicáveis três seios. O deboche que
me era endereçado parecia contagiar o ambiente.
— Então, minha pequenina
prostituta — ela zombou — nunca viu uma mulher com três seios? É o espanto que
te leva ao atrevimento de manter-se em pé em minha presença?
— Eu não tinha a
intenção...
— Tudo bem, fique
tranquilo. Olhe para eles, olhe o quanto quiser. Eles te agradam? São
deliciosos, não? Venha, chegue mais perto para poder admirá-los melhor.
Nada mais, nenhum outro
som: apenas a voz dela.
— O direito é o das coisas
do corpo. Experimente!
Quente, macio, um sabor de
carne feminina que jamais havia saboreado. Suguei como uma criança. Líquido
adocicado.
— O esquerdo é o das coisas
do espírito. Beba putinha, beba!
Esse era frio, mas
estranhamente agradável. Pela minha língua deslizava agora um gosto picante sem
ser incômodo.
— O mais importante de
todos é esse, o do meio: dele jorra o leite das coisas da alma. Chupe, chupe
com vontade, minha criancinha imunda.
Eu estava totalmente fora
de controle. Agarrado àquele seio delicioso eu sugava cada gota daquele néctar
com a ânsia de um maníaco. A cada gole eu parecia sufocar, mas a vontade de
continuar era incontrolável. Meu estômago estava incendiado. Meus lábios
pegajosos pareciam grudados à carne do terceiro seio vermelho. Bêbado sem
estar.
O empurrão veio espantoso,
com força precisa.
Uma
pontiaguda unha vermelhíssima espetou-se em minha face direita:
— Você está pronto!
Rasteje: para o chão que o lugar ao qual pertence! — ela disse autoritária, sem
admitir contestação. Nós te
aplicaremos, como manda a lei aos que se desviam, a humilhação como pena para
expiação da tua infâmia.
Uma escuridão vermelha
tomou conta do ambiente.
Réptil calafrio rastejou
por minha espinha abaixo, quando ouvi a gargalhada debochada em meu ouvido.
Assim começou.
Sem dúvida, ela tinha total
controle da situação.
Nenhuma chance de fuga.
Tentei protestar, mas fui
imobilizado por um grupo de mulheres de todas as cores(brancas, negras,
amarelas, azuis e roxas) de modo a permanecer indefeso e sem reação durante
toda a provação que me aguardava dali para a frente. Mantido deitado de bruços
com firmeza contra o piso, o mármore frio do chão mordia a pele de meus
joelhos. Minhas calças foram arriadas e depois arrancadas com perícia e
violência. Logo estava totalmente despido.
Surpreendido
pelo primeiro açoite. O couro da chibata despencou raivoso instalando um
dolorido caminho de chamas em minhas costas. Trinquei os dentes. Lágrimas
começaram a se formar em meus olhos. Assustei-me com o volume do grito que
lancei para o alto e que se perdeu no teto entre as luzes e o som atordoante da
música. A recompensa foi a intensificação da força dos golpes. Eram mais
espaçados no início. Ganhando velocidade lentamente, passaram a vir mais
depressa depois. A força aumentou
gradualmente. A Mulher Vermelha de Três Seios mantinha o ritmo demoníaco do
espancamento como se regesse uma sinfonia alucinada. O que até ali parecera um
espetáculo de maravilhas e delícias transformava-se agora em um teatro de
horrores.
Bobagem
pensar em clemência.
A voz de
Alva estranhamente alta em meu ouvido:
— Não se preocupe.
Abandone-se à purgação: à dor se seguirá o prazer.
Apesar da
música que continuava ensurdecedora, os únicos sons que conseguia ouvir eram o
estalar cadenciado e ininterrupto do couro e os insultos dela, me chamando de
escravinho sujo, homenzinho ridículo, desprezível pedaço de carne, repelente
saco de pancadas e outros xingamentos.
Pernas
arreganhadas, ela instalou-se em frente ao meu rosto:
— Nunca vi uma carne tão
branquinha que ficasse vermelha tão depressa. Você vai ser a minha delícia pelo
resto da noite. Me limpe! Lamba! Chupe todos os sucos de minha boceta!
Eu não queria, mas
impossível não chorar de dor, as lágrimas insistiam em sair. Era doloroso e não
era ao mesmo tempo. A dor e o prazer se sucediam numa alternância maluca.
Saliva, suor, meleca de
fêmea tudo misturado ao medo em minha língua.
Olhos
brancos gelados que pareciam olhar diretamente para dentro de minha alma, a
respiração fervente de Alva queimando em minha nuca, enquanto ela continuava a
recitar em meu ouvido:
— Você nunca vai se
esquecer disso em sua vida. Muitos têm medo de
encarar essa verdade, de tentar aprender a luxúria desses passos a mais, e
mais: de gostar e gostar para sempre e de jamais poder se livrar dessa vontade
que domina a vontade, que se gruda na gente como um vício maligno, que adere no
mais fundo de nossa alma como uma tatuagem indelével impossível de ser apagada.
Absurdo
de acreditar: agigantado como nunca o vira na vida, meu pau desavergonhado,
endurecido como pedra. Transpirando um suor leitoso, Alva me masturbava
furiosamente. Duvidava que com tanta dor conseguisse gozar. Mas com duas rápidas e apertadas ordenhadas
de sua pequena mas decidida mão branca, Alva com perícia apontou meu pau em
direção ao peito da Mulher Vermelha e me fez esporrar abundante sobre o
terceiro peito, o do meio, deixando-a coberta de gosma, escorrendo porra, minha
porra.
Foi como
o êxtase da agonia.
Levantei
cambaleante, água nos olhos, o pênis chorando as últimas lágrimas de porra
gotejando preguiçosas. O corpo retorcido como o de um boneco de trapos
sangrava/doía em vários pontos, coberto por marcas, vergões, equimoses, chagas,
contusões, machucaduras e todo o inútil repertório de bula de remédio repleto
de palavras diferentes para definir coisas parecidas. Parecia uma patética
imagem de Cristo de procissão de interior em Semana Santa.
Uma
gargalhada de escárnio espalhou-se pelo ambiente. Riam todos os que assistiam o
meu tormento.
Ódio com
gosto de sangue raivoso na língua.
— Chega!
Vocês são doentes. Loucos todos vocês, loucos!
— Loucos
nós, minha putinha? — o tom de desprezo na voz da Mulher Vermelha era
aterrorizante — Você desmanchou-se em excitação ao assistir a toda espécie de
tortura que viu praticada contra os outros. Não fez questão nenhuma de esconder
cada instante de prazer que experimentou ao espancar Alva. E apesar da
gritaria, parece ter usufruído como poucos novatos toda a delícia que conseguiu
extrair de seu suplício.
A ironia
esbofeteou-me ao som das risadas que agora eram insuportáveis.
— Vá
tomar no olho do seu cu! Você não passa de uma puta degenerada, uma aberração
com esses seus três peitos!
De repente, o silêncio
ensurdecedor.
A voz de Lady Vermícia veio
encharcada de ódio vermelho:
— Seu insolente falso
moralista! Esqueceu do que Alva lhe disse quando entrou aqui? Foi dada a você a
oportunidade que a poucos é concedida de gozar as delícias dolorosas dos
pecados que ainda se vai cometer, de enfrentar seus medos e admitir seus
sentimentos, de encarar de frente teus mais secretos desejos proibidos e vê-los
como uma confissão feita para você mesmo para o mais fundo de sua alma, sem
qualquer intermediação moral ou censura. Mas você falhou, deixou-se dominar
pela covardia fácil. Aiwass jogue esse verme na rua!
— Não encoste a mão em mim
seu filho de uma puta!
A fúria da coragem que
arrumei no mais fundo de meu medo espantou o gigante verde que olhava
apalermado enquanto eu corria feito um desesperado em direção à porta.
O baque contra a lateral da
viatura de polícia me fez chorar quente gemendo baixinho.
— Tá louco amigo?
— Pelo amor de Deus, seu
guarda, me ajuda. Se aquele gorila verde me pega ele me mata!
— Gorila verde?
— É, o porteiro, o
leão-de-chácara daquela boate, daquele bar, daquela casa lá, sei lá.
— Que boate, cara? Aqui não
tem boate nenhuma. Isso aqui é uma rua residencial.
Tinha de haver uma
explicação para... eu estar exatamente em frente ao prédio onde moro, num
bairro distante do centro, da Boca do Lixo.
O policial me olhava meio
abestalhado enquanto descia do carro e me pedia os documentos.
— A noite de farra foi da
pesada, hein? Tomou quantas, amigo?
Não respondi. Estava
ocupado, boca aberta de espanto, procurando pelo prédio da igrejinha com o néon
piscando branco: “Argentinum Astrum”.
Liberado em seguida: os
tiras não estavam a fim de se encherem o saco com um bebum “xarope”.
Sonâmbulo, pernas tremendo,
subi as escadas do prédio. Meu reflexo no espelho da parede da portaria era
lastimável.
Arranquei as roupas
amassadas e suadas — roupas?, mas eu estava nu quando fugi de lá! O sofrimento
que experimentava era terrível, mas a imagem do espelho não mentia: meu corpo
estava intacto, nenhuma marca. Porém, eu sentia individualmente a dor de cada
golpe que me fora dado.
Me joguei de costas na
cama, fechei os olhos e... não dormi.
No dia seguinte voltei à
Teodoro Baima. O prédio da igrejinha estava lá, abandonado, decadente, quase em
ruínas como sempre conheci. Nem sinal da Casa da Mulher Vermelha. Todos a quem
perguntei me encararam como se falassem com um doido.
Mais duas noites de dor
insuportável sem dormir. Na madrugada da segunda o impulso veio do desconhecido
e me masturbei: a punheta milagrosamente eliminou a dor e dormi por algumas
horas.
No trabalho todos
comentaram minha aparência epidêmica. Devolvi o dinheiro e meu crime não foi
descoberto.
Consciência, o mais
terrível dos vírus que nos mata a cada dia em que estamos vivos, mas do qual só
no liberamos com a morte. Não há cura para a consciência. “Sua consciência
será sua tortura”, Deus deveria ter dito ao homem quando o expulsou da
felicidade.
Por um tempo foi uma
obstinada tentativa honesta de querer esquecer de tudo aquilo. As masturbações
já não faziam efeito: a dor, a ansiedade voltavam a atacar decididas como o
fantasma de uma mulher de corpo totalmente branco como se houvesse sido
mergulhada numa lata de tinta. Encontrei mulheres que pude espancar. Submeti-me
a outras que me supliciaram. Inútil. A necessidade de retornar àquele lugar
mantinha-se aflita.
Depois...
É sempre assim: a carência
do passado mora na imaginação da gente em forma de lembrança sonhada.
Dois anos? Dois anos e meio
já? Três?
Sei lá, venho procurando
durante todo esse tempo.
Tinha certeza de que ficava
naquela rua. Depois de um tempo, dúvida: talvez tenha se mudado para qualquer
outra dessas daqui da Boca, escurecidas fedendo a asfalto chovido. Ou quem sabe
para outra em outro bairro?
Não pode ter sumido no ar.
Nas noites de São Paulo, em
todas as estações do ano, por esse tempo todo, no abafado de quando não chove,
na garoada friagem de quando esfria, no fedor úmido de
chuva asfaltada.
Procurando sempre. Firme.
Sem desistência.
Pior foi hoje.
Após mais uma noite se sono
intranqüilo, acordei imutável em minha ridiculum vitae.
Uma pichação no muro do
terreno baldio em frente ao meu prédio: “A Casa da Mulher Vermelha”
e uma seta vermelha malucamente rabiscada em spray apontando para a
esquerda.
Mas para a esquerda não tem
nada, só o muro no fim da rua.
Moro numa rua que não tem
saída.
Nem eu.
O destino nunca dorme.
Com passos decididamente
covardes, o coração dando pontapés no estômago, vou andando para a esquerda, em
direção ao muro no fim da rua.
EPITÁCIO PESSOA!!! este o nome da rua! a rua onte termina ou começa a teodoro baima, rua do arena. dia destes, andando pelo centro, fiz questão de mudar o itinerário só pra ver o nome da bendita, que isto tava azucrinando a minha cabeça, rs... desculpe, se quebrei o 'mistério', mas fui lá conferir...
ResponderExcluirMaravilhoso blog...adorei!!!
ResponderExcluirVai gostar do meu tambem,da uma passadinha por la.
http://segredosdapretinha.blogspot.com.br/
Desde ja agradeço.
beijinhosss
... tks pelo carinhoso comentário...
Excluir... já dei uma lida em teu blog... congrats!!!...
... kisses...
... saudações em S&M...
A Carne Sorri Na DOR