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Foto: Claudio Cammarota |
Acaba sendo uma compensação natural. Então
nunca senti ganas de oferecer moças virgens no altar sangrento de qualquer
divindade só porque minha audição ficou mais aguçada. Ainda mais para escutar
no meio do falatório idiota dessas ocasiões a infalível frase de espanto:
“Nossa, como ele consegue?” Parece que as pessoas estão convencidas de que quem
fica cego vira analfabeto, incapaz de escrever, ou que deveria,
obrigatoriamente, dar autógrafos em braille.
Bem como, todos concordam que o cego é em essência um desonesto: “Se eu estiver
mentindo quero ficar cego nesse instante”. Melhor segurar a gargalhada, senão
confirmo outra “verdade” sobre cegos: “Todo cego ri com cara de bobo, que nem o
Ray Charles”.
Você, que nem nome tem pra mim, não
tem mesmo como imaginar que consegui ouvir o que falou baixinho para sua
mulher: “Além de cego, ganha uma grana sentida escrevendo essa imundície e
ainda dá o botão fedorento”?
Não foi, evidentemente, pela voz, que
não tem como ser a mesma. Mas a palavra infantil para definir cu, o mesmo
calculado desprezo para falar sobre a veadagem? Não foi acidente de ceguinho
desastrado. Deixei a caneta cair no chão de propósito. “Não, pode deixar”,
dispensei a ajuda de tua mulher. Precisava tentar confirmar o teu cheiro, de
você que nem tem nome pra mim.
Os cegos também desenvolvem mais o
olfato e o seu cheiro mesmo que quisesse, não poderia esquecer. E estou
sorrindo de felicidade, mas melhor você pensar que todo cego ri com cara de
bobo, que nem o Ray Charles.
Bless
the beasts and children
For
in this world they have no voice
They have no
choice...
A bobagem interditada a diabéticos
cantada pelos Carpenters era a baba
da vez em todas as rádios e vitrolas, maior sucesso principalmente entre a
garotada com os hormônios em alvoroço pela puberdade recém-chegada. Eu não
tinha nada que estar naquele bailinho de fim de curso no ginásio do colégio do
bairro quase pobre. Demagogia barata do diretor para tentar diminuir o
desconforto dos meus pais. O cegueta “quatro-olho”, óculos de fundo de garrafa
de champanhe, o primeiro aluno da turma, era o mariquinha queridinho dos
professores. Nenhuma das meninas dançaria comigo: preferiam manter-se afastadas
na desconfiança. Os meninos não tinham porque ser meus amigos: embora no jeito
imaturo da idade, tinham a quase certeza que eu também logo teria.
Bless
the beasts and children
For
the world can never be
A
world they see
Light
their ways…
Pai, mãe, diretor, professores, todos,
ninguém tem poder nas fronteiras do imundo reino do banheiro dos meninos. Você
que nem nome tinha para mim, que nem era da minha classe, que era apenas o
valentão desbocado sempre provocando a tudo e a todos no recreio com palavrões
escabrosos.
Encurralado.
Minha visão nublada tentou inutilmente
te focalizar melhor. Bobagem: naquele momento você era o onipresente tirano
onipotente, onisciente da desgraça que me estava reservada em seus domínios
fedendo a mijo e bosta, teus amigos eram os voluntários cúmplices, algozes
desumanos entoando o coro de gargalhadas debochadas.
When
the darkness souronds them
Give
them love
Let
it shine all around them
Bless
the beasts and children
Give
them shoulder from the storm
Keep them
safe...
Quando me agarrou pelos cabelos e me
levou a centímetros de seu hálito fedendo a cigarro e bebida, notei que era
feio, mas a maldade precoce que a maturidade um dia iria esculpir para sempre
em sua face me fez achá-lo belo e não considerei injusto que precisasse me
martirizar por haver repetido de ano mais uma vez. Talvez por isso senti-me
constrangido em gemer quando a bofetada arremessou meus óculos de cegueta
“quatro-olho” para algum desconhecido ponto no infinito do universo. O soco no
estômago me tirou a respiração por um tempo que me fez temer morrer em sufocação,
mas sabia que não deveria gritar ou pedir socorro, pois poderia vir alguém e
então tudo estaria acabado e eu nunca saberia o desfecho do mais que
justificado destino humilhante de que era merecedor o primeiro aluno mariquinha
queridinho dos professores.
O cimento do chão tinha um cheiro
estranho, o solado grosso do teu vulcabrás mandava um aroma enjoativo de
borracha e poeira para meus pulmões, porém, a dor em meu rosto esmagado era
anestesiada pelo estranhamento da vergonha que, de forma inédita até aquele
dia, fazia meu pau estar duro como em nenhuma punheta jamais estivera.
Não era necessário seus amigos terem
segurado meus braços e pernas como um patético crucificado. Melhor mesmo estar
sem os óculos e ter meu pânico afrontado pela merda molhada de mijo grudada na
sola de teu sapato. O pontapé nas bolas do saco foi de fria eficiência para que
eu abrisse a boca e obedecesse com entrega sua ordem, lambendo e lambendo e
sentindo na língua... Com monstruosa malícia você havia mergulhado o sapato
numa das privadas repletas de excrementos, novos, velhos, não importa. O sabor
não era o que sugeria o fétido do cheiro. Amargo enxofre? Seria esse o gosto do
cu do diabo, o mesmo com que se deleitavam as bruxas no sabá, quando em meia noites
de luas cheias malditas depositavam ósculos tarados no demoníaco ânus purulento
para alcançarem a degradada delícia da degenerada comunhão com o prazer
interdito?
Não foi você, não sei quem jogou meus
óculos em meu peito. Não precisei deles para guardar fundo a tonalidade perversa
de tua voz: “Se contar para alguém, cegueta filho da puta, te como o botão
fedorento, prega por prega, na sangria, sem vaselina!”
Apressado, coloquei os óculos, queria
enxergar mais uma vez teu rosto de impiedade juvenil, mas você já saía de
costas. Um de seus amigos torturadores olhou para trás: “Olha, o veado tá
rindo!”
“Deixa, todo cego ri com cara de bobo,
que nem o Ray Charles”, você disse com calculado desprezo enojado.
Uma mágoa do tamanho de um deserto
doía de uma maneira desconhecida. Não sabia a razão, mas não era pela
humilhação ou pela dor. Um entesamento inédito eletrificava o meu botão
fedorento, como você chamara meu cu, e se depositava infernal em meu saco
doloroso, exigindo, sem prorrogação, a punheta endoidecida que toquei e toquei e
que acabou numa porra pegajosa como uma felicidade de quem ri à toa com cara de
idiota, temperada com um aroma de imundície que entorpecia e tonteava.
Lavei o rosto, me arrumei o melhor que
pude, mas o teu cheiro destacando-se entre o fedor de toda aquela dolorida
humilhação em sujeira não abandonava minha inquietação. “Depois passa”, pensei.
Bobagem: fora inevitavelmente contaminado. Ele persiste até hoje, com a mesma
intensidade, transmitindo a mesma vertigem sem álcool, em noites e dias, só ou
quando, em abjeta submissão, desprezível pedaço de carne rastejante com a bunda
nua empinada, franqueio carnes de nuca e pescoço à baba viscosa das mordidas de
dentes de tantos quantos a quem imploro para que cumpram, e cumprem, a sua
ameaça/promessa daquela noite de escatológica libertação em martírio. Está no
paladar de todas as solas de pés e sapatos que sempre desejo imundas e que
lambo com degenerado rebaixamento. O mesmo cheiro que me impõe o desejo de
desfrutar a despudorada gulodice de ter em minha língua o mijo esguichado
direto das rolas, a merda cagada direta dos cus. Entre fezes e urina nascemos,
escrevem os fogos de artifício que estouram obscenos no céu escuro de meu gozo
maldito pelos que são abençoados pela conveniência da hipocrisia.
Foi revelação quase em epifania,
descobrir que o Éden, o Olimpo, o Valhala, o Nirvana, ou sei lá qual espécie de
paraíso ansiado, cheirasse a merda e mijo e que a recompensa eterna viria pelo
pontapé, pelo pisoteamento, pela purgação no rebaixamento de pelos tempos sem fim
lamber e degustar em êxtase as imundícies renegadas pelos outros seres humanos.
Você, que nem nome tem para mim, está
certo. Veado, bicha, baitolo, boiola, xibungo, em todos me faço de prostituta
arregaçada na mesma única pederastia. Sim, tenho dentro de mim todo um exército
de veados hunos em sodomia sem censura pronto a invadir e emporcalhar as
imaculadas areias brancas da praia da hipocrisia do bom gostismo com minhas
ações sujas e com a metralha de todos os palavrões sujos de que me sirvo para
definir a sujeira delas.
Admitem que eu venda bilhetes de
loteria ou peça esmolas, mas não que dê meu cu de graça ou solicite gentilmente
que me permitam chupar uma rola ou lamber uma sola fedorenta de pé ou calçado
sujo.
Em terra de quem enxerga, cego que for
veado o suficiente para ter um olho de cu que enxerga é rei na escravidão.
Não me importo que me julgue e condene
porque escolho as delícias com que me envenenar do que com os venenos com que
querem me anestesiar as consciências limpas pelo ascetismo da conveniência.
Me fiz a náusea acusadora, engolidora
de lama e poeira de pés quentes e suados que exalam sufocantes chulés fétidos,
que suplica pelas cusparadas, que abre a boca gulosa a buracos arrotadores de
peidos, cuspidores de troços, vomitadores de diarreias. Ofereço meu botão
fedorento para acolher em desavergonhada intimidade cacetes grossos, finos,
grandes e pequenos que se enterram em mim e trazem o inevitável cheiro da
bosta, da minha bosta. Arreganho bochechas de bundas, penetro minha língua de
saliva grossa em cus e ajoelhado em tributo de adoração a cada bofetada de
desprezo que recebo, olho cego para quem não vejo, me punhetando lamuriento,
espero como única recompensa apenas o banho de mijo depois da porra.
Bless
the beasts and children
For
in this world they have no voice
They have no
choice
E o mesmo odor agora, aqui, tão
próximo de novo, permanecerá anônimo: “Não é pra mim, é pra ela, escreve aí pra
Maria Aparecida”.
Irônico que a revelação pela
degradação, que um dia encarei luminosa, venha a se incendiar brilhante em
minha memória, justamente quando estou no sem cor da escuridão da cegueira.
Deixa pra lá.
Aquela noite me ensinou a não me
deixar infelicitar ou frustrar pela vida.
Se a falsidade social não preservasse
a pureza da perversidade das crianças, não teríamos adultos monstruosos e para
aqueles que como eu oferecem uma e outra face à humilhação dos pontapés e a
língua à depravada lambeção da sujeira do mundo, isso seria insuportável.
Por todos esses anos e para sempre,
abençoo a besta infantil do interior de sua alma que, com crueldade, me
infectou com a delícia da mais baixa das abjeções desprezadas pelos homens.
Devo isso a você que continua nem nome
tendo para mim.
Bless
the beasts and children
Give
them shoulder from the storm
Keep
them safe
Keep
them warm