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Foto:
Elena & Vitaly Vasilieva
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"Se
vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi”
(“Se queremos que
tudo fique como está, é preciso que tudo mude”)
(Giuseppe
Tomasi de Lampdusa, Il Gattopardo)
Tráfego pesado como uma culpa, na rodovia que leva ao
aeroporto.
Olhos atentos à nuca do motorista, ordena que ele aumente
a intensidade do ar condicionado, separa as pernas e sente a brisa fria refrescar-lhe
um pouco do calor que transpira pegajoso no tecido fino encharcado da calcinha.
Tenta respirar com naturalidade, puxa um tanto a saia expondo um pedaço de coxa
carnuda. Os olhos do motorista, casualmente encaram o retrovisor, que ele ajeita
com estudado profissionalismo. Os olhos do marido permanecem enfiados na pasta
de documentos. O cheiro do couro mistura-se por um instante ao seu aroma de
fêmea. As mulheres, geralmente, excitam-se com o odor de couro, pensa, porém,
para ela o aroma do estofamento do carro luxuoso causa uma sensação de repulsa:
cheira a casamento.
Pouco mais do que uma adolescente quando casou. O sexo
iria iluminar todas as suas noites de mulher ansiosa em fazer-se fêmea plena em
todos os dias de vida, idealizou. O brilho do casamento, no entanto, apagou-se
na mesma proporção de rapidez com que a luminosidade da conta bancária do casal
se intensificava. Além de todo o dinheiro sobrante para necessidades e
caprichos supérfluos, casa grande quase mansão, empregados, automóveis
importados na garagem, filhos saudáveis e bonitos, agora já desaninhados cuidando
das própria vidas. Porém, a falta de apetite do marido para as coisas da carne consolidou-se
em poucos meses, a ponto de, simplesmente frustrante, transformar-se para uma
mulher de sexualidade intensa como ela numa insuportável tortura, que nem todos
os vibradores e consolos que utilizava conseguiam satisfazer. Nada lhe restou,
além de tomar o caminho natural e perfeitamente aceitável para uma mulher respeitável
de sua posição social: amantes diferentes
em tardes de encontros variados em motéis todos iguais em sua diversidade de
luxo de bom gosto vulgar. Encarava tudo com a praticidade de um cinismo bem
remunerado pela santidade do sacramento do abençoado matrimônio. Achava que o
pesadelo de uma vida vale
pelos poucos
segundos de sonho de cada gozada que se dá. Em pouco, porém, isso transformou-se apenas
em outra rotina de recalque, mas que pelo menos lhe proporcionava orgasmos,
coisa que com o marido já não experimentava há tempos. Aceitava a banalidade de sua existência, lembrando sempre da frase que ouvira repetida no início da adolescência da
boca da bicha velha que foi seu professor de postura e etiqueta: Se uma coisa
não tem valor, deve apenas parecer bonita e enquanto há dinheiro, isso não é um
problema.
Fantasias, desejos interditos quase que até a ela mesma,
permaneciam, no entanto, insatisfeitos. Anseios secretos por prazer em
humilhação e dor, que julgava pesadelos de uma sexualidade adolescente
imaginativa, a cada dia agigantavam-se em sonhos eróticos de uma força
pornográfica tal que a faziam masturbar-se dormindo e acordar em melados gritos
surdos que o marido, roncando, jamais escutou.
Na porta da sala de embarque, permitiu que o marido lhe
desse o protocolar beijo na face e apenas esperou pelo aviso de confirmação de
decolagem do voo para os Estados Unidos. Virou-se e caminhou hesitante em
direção às duas semanas que lhe dariam uma total liberdade que ela não sabia
como usufruir, além das rotineiras trepadas com os amantes em motéis, depois de
almoços cheios de frases babacas de erotismo de almanaque em restaurantes
bacanas.
O acaso está sempre à espreita para despertar os
fantasmas da inconstância que assombram a alma de uma mulher insatisfeita.
Pensava se a casa vazia seria mais vazia do que ela se
sentia, quando foi importunada pela comunicação do motorista de que o carrão
teria de ser deixado na oficina por uns dias para revisão, mas se ela quisesse,
poderia serví-la dirigindo o carro esporte, quando ela desejasse. Aliás, o
Jaguar estaria à disposição dela na concessionária: ele o havia deixado lá,
muito cedo. Irritada por essa violação de seus pensamentos, como sentia-se
violentada nas esporádicas ocasiões em que o marido simplesmente ejaculava
dentro dela, respondeu com a afetação social adequada, saber que ele era
competente para cuidar de tudo para ela. Num relance, não pôde deixar de
perceber que o olhar do motorista sorria, discreto mas malicioso, no reflexo do
retrovisor: sim, ele estava encarando sua coxa exposta na casual cruzada de
pernas.
Um homem definitivamente feio e que apesar dos esforços,
não conseguia esconder a rudeza de sua origem, mas que no último ano tinha-se
revelado um serviçal eficiente e ganho definitivamente a confiança do marido.
Tornou a saber-se em território seguro quando sentiu o
estofamento do Jaguar prateado abraçá-la e pronta a retornar a seus devaneios
sexuais, tão logo escutou o ruído do motor, quente como a respiração de um
verdadeiro macho, pensou. Ia partir, quando pelo vidro surpreendeu o obsequioso
cumprimento de despedida do motorista sorrindo-lhe solícito naquele rosto
tosco. Como voltaria à casa? De ônibus, madame. Não é necessário.
Um tremor de excitação percorreu sua espinha, da nuca ao
ânus, quando o motorista, flagrantemente constrangido, instalou-se no assento
ao lado. Um cheiro estranho, quase sórdido vinha dele, mas definitivamente
masculino ela constatou e a contração de sua vagina confirmou. Sim, que
distração imperdoável, havia esquecido de colocar o cinto de segurança. Era
somente um profissional capacitado e tinha a obrigação de ensinar, madame,
apenas isso.
Estranhamente, as tão familiares despersonalizadas ruas
bem cuidadas que levavam ao bairro nobre pareciam agora um misterioso e longo caminho
desconhecido. Além de bem treinado, era também o que se chama de um bom piloto?
Sim, fanático por automobilismo de competição, quando jovem, havia participado
de algumas corridas, porém, sem recursos, não conseguiu fazer carreira. Sempre
desejou saber o quanto o Jaguar poderia render, o diriga apenas como um
brinquedo de luxo. Poderia mostrar-lhe?
O desconforto dele era indisfarçável, mas o riso quase
sádico quando encarou o volante, após trocarem de lugar, a hipnotizou em
instantes. Momento seguinte, guincho ensurdecedor da borracha dos pneus no
asfalto, era apenas vento em velocidade de sonho alucinado descabelando seu
penteado custoso – retas e curvas não importando, o automóvel respondia em
harmoniosa obediência à firmeza das mãos do motorista, como um corpo feminino
sendo comandado na posse do sexo - e uma sensação embriagante de perigo que fez
a umidade de entre suas pernas transformar-se num gozo impossível de ser
evitado. Sabia que gritou em algum momento, mas o prazer a ensurdecera a tudo o
mais que não fosse a voz da carne em êxtase. A freada brusca, quando chegaram à
entrada da casa, ainda a surpreendeu terminando seu orgasmo involuntário. O
cachorro do marido olhava com um olhar de reprovação canina, quase tão intenso
quanto o da empregada quando viu motorista e patroa. Desculpe se a assustei.
Nem pensar, foi delicioso, há tempos estou precisando de emoção em minha vida.
Como consegue com tamanha naturalidade? Um carro esporte tem a força do
espírito de uma mulher que precisa ser controlado com determinação. Fez de
conta que não deu importância a essa observação, mas suas pernas estavam amolecidas
enquanto caminhava quase cambaleante em direção à casa.
O relaxamento veio com os filetes de água morna: uma
inquietante calma sensual que não experimentava desde os tempos de juventude
foi tomando conta de cada centímetro de pele de seu corpo e aos poucos, como
uma doença abençoada, foi se infiltrando por suas carnes femininas - sem se
aperceber, estava torturando com os dedos seu mais íntimo interior de fêmea,
apertando com violência os bicos dos seios - que terminou numa alucinada
sinfonia de gritos e gemidos caninos debaixo do chuveiro, a que seus lábios
sorrindo estranhos para o espelho concediam uma pervertida aprovação. Enquanto
espalhava o caríssimo creme pela pele recordou-se em estranhamento dos tantos
anos que não se masturbava com tanto sentimento, justamente por ausência de um
incentivo à sua fantasia. Porém, nesses instantes passados, quando relembrou da
velocidade do Jaguar prateado pilotado pelo motorista...
Tarde de chá à beira da piscina do clube social, com o
galináceo rebanho de enricadas amigas cacarejantes, um compromisso usual que
preenchia um de seus tantos vazios cotidianos, sempre encarado com afetada
naturalidade. Algo cuja incompreensível futilidade, agora aparecia gigantesca
ante seus olhos claros.
Às amigas, pareceria mais um infantiloide e divertido
luxo ostentatório, ser conduzida pelo motorista particular. O pretexto de não
desejar amarfanhar o delicado tecido do vestido de griffe foi explicação
suficiente para a desnecessária, mas sempre culpada, justificativa com que os
superiores brindam os inferiores para mostrar que façam o que façam, o fazem
porque querem e acima de tudo, podem e que julgamentos, sejam quais forem, são
absolutamente irrelevantes e inúteis. Dane-se a empregada, se acreditou ou não.
Algo como uma depravada pervertida de suas clandestinas
leituras de juventude tinha se instalado em seu interior, como se um espírito
maligno a houvesse possuído. Acabou de urinar e antes de levantar-se do vaso
sanitário, cedeu a um impulso transgressivo e abandonou a calcinha no frio do
mármore do chão do banheiro. Num instante de resoluta e inexplicável
degeneração, saiu: sem enxugar-se. O motorista sentiria o cheiro de fêmea
devassa que, sabia estava exalando acima mesmo do perfume francês?
Fantasioso delírio literário juvenil: tanto na ida quanto
na volta, o motorista manteve-se impassível na polidez de empregado, apenas respondendo
com palavras contadas às perguntas que lhe endereçou. Frustração dolorosa que a
acompanhou até os lençóis e de quem a insônia debochou por horas. O zumbido do
vibrador que, pela primeira vez introduziu no ânus sem qualquer lubrificação,
foi trilha irritante para a auto sodomia que, embora dolorida, trouxe-lhe enfim
o sono... inquieto de pesadelos recalcados. Agora, porém, estava decidida sobre o que desejava para
as duas semanas de liberdade que a viagem do marido lhe propiciavam e sabia que
não iria desperdiçá-las com as fodas cretinas com os amantes imbecis. Eles
sempre estariam lá. Mas agora...
O inusitado viera para ficar: novamente sem calcinhas,
outra vez sem enxugar-se após urinar. A condescendente petulância com que
tratava os serviçais, porém, era mais determinada do que nunca, quando, ao fim
da tarde, dispensou a empregada por todo o final de semana.
O coração batia fora de ritmo quando entrou na garagem. O
motorista trabalhava no motor do Jaguar prateado. A resoluta insolência afirmou-se
prepotente na voz, quando perguntou que espécie de audácia dava a um
empregadinho ignorante o direito de insinuar-se à uma dama de sua categoria,
comparando a pilotagem de um automóvel ao amor com uma mulher e ainda
vangloriar-se de ter controle e domínio sobre ambos? A surpresa do motorista
era eloquente no silêncio de sua boca aberta em espanto. Você nunca comandará
um Jaguar porque é pobre! E nenhuma mulher com um fiapo de dignidade jamais vai
se interessar por um sujeito que além de pobre é feio!
A bofetada arremessou com sonoridade seu rosto no metal
moldado em linhas esguias do para-lama prateado. Respirou o brilho da lataria
com uma estranha sensação de êxtase e testemunhou com delícia no reflexo da
pintura as lágrimas escorrendo grossas de seus agora angustiados olhos claros
arregalados em espanto. Pra mim, mulher é tudo puta, com dinheiro ou sem
dinheiro, sua vaca riquinha! Como se atreve, seu animal? O vestido leve,
rasgado como se de papel, arrancado de um único golpe violento pela mão suja de
óleo e graxa. Dedos imundos que se forçaram por sua boca. Vai ofender de novo,
vadia? Sente o gosto da merda que tem dentro do cu do teu Jaguar importado,
madame. Assim, cara bem assustada, adoro ver isso no rosto das cadelas. Esses
biquinhos duros nessas tetas de vaca não deixam mentir: tá gostando, tá
gostando, né puta?
Agora era sua bunda sendo amassada contra o frio do metal
do automóvel. Os dedos sujos que ela era obrigada a chupar permaneciam
remexendo-se em sua boca escancarada, buscando sua garganta. Eram outros que,
embaixo, infiltravam-se descuidados pelo vão de suas coxas até encontrarem a
abertura de seu sexo. Aqui também não tem enganação: a boceta da madame está
toda nojenta de melada. Ou madame não chama boceta de boceta?
Agarrada pelos cabelos, atirada com violência no chão
sujo da garagem, respirando como quase afogada, sentiu uma inacreditável
quantidade de líquido quente abandonar seu corpo. Cadela mijona, não sabe que o
patrão exige que o chão da garagem seja mantido im-pe-ca-vel-men-te limpo? Vai
limpar tudinho agora e já, e com a língua. Vai beber todo o mijo de volta, gota
por gota. A língua estava incendiada pelo áspero do piso, a garganta
fechando-se pelo asco à lama nojenta, mistura de poeira e urina. A mão
apertando sua nuca transmitia uma dor insuportável. Seus lábios ardiam sendo
esfregados contra o cimento.
Essa bunda de branquinha não é tão gostosa quanto as das
meninas lá do lugar de pobre onde vivo e sempre vivi, mas o buraco de cu deve
por merda pra fora como todo mundo. Ou será que rico também caga dinheiro?
Vamos conferir. Ela não sabia o que era, terrivelmente mais dolorido do que o
vibrador. Seu ânus estava sendo arreganhado sem hesitação. Inacreditável quando
viu o cabo da chave de fenda rente a seus olhos. Olha aí, olha aí, tem bosta e
sangue como no rabo de todo mundo! E nem é sangue azul. A risada era de uma
obscenidade primitiva.
De repente, quietude. Apenas sua respiração amedrontada e
o salgado das lágrimas insistindo em engasgá-la.
A queimação elétrica do nada espetou-se em suas costas.
Sem tempo de terminar o grito, outra em seguida. E a terceira, e a quarta e as sabe
lá quantas incontáveis despejadas com um ruído seco e agudo sobre todas as
carnes de seu corpo. Borracha inglesa le-gí-ti-ma, madame, lá da terra da
rainha. Nem seus mais degenerados pesadelos puderam imaginar algo tão depravado:
estava sendo espancada com uma correia de motor. As vergastadas em suas costas
e bunda eram uma sucessão de infernais solavancos doloridos. Aterrorizou-se
quando percebeu que a excitação de seguir o desconhecido da estrada pavimentada
de tijolos de desejos secretos ameaçava sobrepor-se ao medo e ao seu bom senso
de mulher frívola. Não aguento mais! Pare, a gente esquece de tudo, não conto
nada para o meu marido, te dou um aumento de salário. Ah, a cadela rica que
acha que pode comprar tudo com o seu rico dinheirinho nunca adormece, não. Com
violência enterrou dois dedos em seu cu: É aqui que vou te enfiar toda a tua
fortuna e ainda vai sobrar espaço para o meu caralho. Com automatismo cínico
introduziu seu pau enorme naquele rabinho que até agora tinha sido apenas um
playground para ingênuas brincadeiras anais de seus amantes. Sentia prega por
prega sendo rasgada com precisão mecânica a cada estocada daquela imensa coisa
de carne endurecida. Não entro nessa madame, por que sou pobre mas não sou
burro e sei que quem aceita ser comprado depois não pode reclamar do preço.
Uma coisa que as putinhas casadas como você devem saber muito bem. O grunhido animal em seu ouvido anunciou o dilúvio de
esperma incendiada em ardor que inundou seu reto. Numa tonalidade quase surda
sussurou: Eu vou gozar. O estampido do tapa em seu rosto interrompeu o natural
desenrolar de sensações de seu corpo: Nem fodendo, madame, só goza QUANDO e SE
eu deixar. Constatou que meramente por instinto, aquele indivíduo tosco tinha
perfeita ciência do que era sadismo sexual: vê-la queimar
a alma em
gozo era o combustível
que alimentava
o incêndio de seu saco e a labareda de
seu caralho.
Sua respiração começava a retomar um
compasso próximo à normalidade, quando novo puxão violento em seus cabelos
colocou-a em pé. Não acabou não, madame. Você eu já sei quanto o pode dar.
Vamos ver se esse outro brinquedinho de rico aqui consegue mesmo chegar aos 240
quilômetros por hora. Loucura inconcebível: nua, foi atirada no banco do carro.
Motor ligado e acelerado como um grito de gozo de fêmea violada. Puxada pelos
cabelos e comandada pelas bofetadas foi obrigada a abocanhar aquele pau que,
inacreditavelmente, mantinha-se majestaticamente ereto. Pela nuca foi sendo
empurrada e obrigada a engolir centímetro a centímetro até sentir que a cabeça
do caralho acomodava-se intrusiva na entrada de sua garganta. Vai chupar
gostoso, rameira e se atreva a vomitar, que te faço engolir tudo de volta na porrada.
Ele continuava despótico em seus ordenamentos, mas agora isso era
desnecessário. Ao contrário do que pensam, não é preciso ensinar a fêmea a
submeter-se. A submissão está lá dentro,
escondida atrás da mulher: a dor aplicada na dose
correta combinada à humilhação a traz à
tona. Sua alma entregou-se na primeira bofetada. Agora ela ofertava a carne do corpo pelo prazer do gozo, pela
dor física e pela servidão às sensações clandestinas. A delícia do desprezo a
havia infectado e ela sabia que não podia mais, nem desejava, curar-se dessa
doença.
Os pneus guincharam um grito agonizado
de lamento emborrachado e a velocidade começou a multiplicar-se em seus
ouvidos. Noite, sim, mas loucura impensável um automóvel correndo daquele jeito
ensandecido pelas ruas da cidade e com uma mulher nua chupando o cacete de um
homem que, com movimentos estudados, comandava a máquina e com despotismo
indiscutível comandava sua vontade. Quero ver quem é mais rápido: você, sua
puta, pra me fazer gozar ou o Jaguar chegar aos duzentos e quarenta? Vamos:
corra, madame, corra! Corra, madame, corra! A revelada cadela desprezível não
podia decepcionar seu macho dominador e ser superada por uma engenhoca
mecânica. Aplicou toda a perícia de lábios e língua que desconhecia possuir e
com a fome dos que não desejam ser saciados, empenhou-se como alucinada em cada
manobra de sucção que inventava dirigida pela insanidade do prazer, até – a
freada do automóvel foi repentinamente seca e violenta - que percebeu o jorro
grosso de líquido quente e viscoso inundar-lhe a boca. Engoliu com a sede dos
afogados e mesmo sem olhar, sabia que sua boceta (e pela primeira vez na vida,
mesmo em apenas pensamento, surpreendia-se definindo seu sexo com aquela
palavra que sempre considerou vulgar e suja) lutava contra suas coxas apertadas
para abrir sua mais despudorada gargalhada melada. Achou que não tinha porque
esconder dele o sorriso de satisfação que seus lábios ostentavam. A mordida no
seio, no entanto, foi de uma dor lancinante, originando um grito incrível que
não conseguiu gritar para a noite, pois a mão forte do motorista tapava-lhe a
boca. As lágrimas vieram desabaladas e cresceram quando viu as gotas de sangue
escorrendo do ferimento que reproduzia a série de dentes selvagens que agora
lhe riam debochados e ordenavam silêncio. Não interessa, se ganhou, madame, a
mulher jamais vai substituir a máquina.
O desprezo na frase escorria nojento e
pegajoso como a saliva de um escarro de escárnio.
Foram minutos gigantescos até a volta à garagem. Porta
aberta com brutalidade, pontapé estúpido e estava atirada no chão como um
trapo. Pelos cabelos, sempre puxada pelos cabelos. Não que a madame, melada
como qualquer égua de esquina, precise de mais lubrificação, mas mesmo assim eu
ainda quero trocar o óleo. Inacreditável que aquele homem ainda tivesse
disposição. Foi jogada no capô do carro. Quente como o inferno. Embora sentisse
o corpo dentro de uma fogueira, os seios e a barriga queimando na lataria
aquecida, tremia como se exposta a frio extremo e a racha da boceta encharcada
era apenas uma pasta de carnes indefesas que foi imediatamente esfaqueada por
aquele caralho que agora frequentava seu interior com a desenvoltura do invasor
que sabe não encontrará resistência. Foram poucas mas dolorosas estocadas e
sim, aquele homem ainda trazia dentro de si uma dose considerável de caldo de
macho com que suas entranhas se embebedaram em orgasmos seguidos.
Então, tudo rápido como o inexplicável de uma surpresa. Novamente atirada
no chão, pontapés e insultos, o bater da porta do carro, o guincho dos pneus. O
silêncio. Cambaleou pela noite até o quarto. O espelho testemunhou imparcial o
desenho demente de vergões e hematomas que adornava suas carnes brancas. Nem
todo o sabonete, ou o perfume que usou após o banho, conseguiram afastar de
suas narinas o odor do desprezo, o odor do desprezo no hálito de repulsa que
acompanhou cada palavra de insultuosa humilhação que o motorista lhe dirigiu.
Provavelmente jamais aquele aroma de verdade escarrada abandonasse as entranhas
de sua alma de mulherzinha fútil. Porém, seria uma secreta cicatriz latejante
deliciosa de carregar. A camisola de seda pareceu pedra acomodando-se sobre as
contusões de sua pele. Sorriu para seu reflexo um pensamento divertido: certo
estava Rimbaud que pregou o desregramento metódico de todos os sentidos. No
entanto, estranhamente, adormeceu em paz e dormiu sem sonhos. Não mais
precisava deles. Tinha agora sua realidade instransferível: fêmea que um
dia se sonhou pássaro
e agora se ansiava apenas desprezada cadela.
Despertou serena para a claridade da manhã e as dores no
corpo, antes que incômodo, transmitiram-lhe o desejo de acariciar os seios
enquanto se dirigia à janela. O que esse brilho ácido, até mais ofuscante que o
do sol? Lentamente, andou em direção à garagem com a hesitação do condenado ao
encontro do carrasco e... o sol produzindo um cegante reflexo... no metal
polido do para-choques do Jaguar. O motorista, braços cruzados em postura
desafiadora encostado no luxo do automóvel. Tirou do bolso as chaves do carro e
atirou-as em seu rosto. Não sou ladrão, nem estuprador, pode chamar a polícia.
Com automatismo de criatura récem nascida como ser constituído apenas de desejos feitos carne ,
deixou que a seda da camisola escorresse por suas carnes, pôs-se nua com a
naturalidade dos demônios, os olhos claros buscaram em torno até localizarem na
bancada próxima a correia de borracha. Orgulhosa, empunhou-a ante a face do
motorista. Não pronunciou palavra, mas seu olhar suplicante traduzia o
pensamento que seu cérebro implorava: Vamos, animal repugnante, me dê tudo
aquilo que sabe que eu desejo.
Aborreceu-se quando o
marido interrompeu sua leitura de filosofia oriental, justamente no trecho em
que dizia que a alma humana só se engrandece no desapego das coisas materiais.
Ele a advertia para cuidar da velocidade ao dirigir o Jaguar, para evitar
multas como as que trazia na mão. Degustou com afetação o gole de champanhe
francês e retrucou de que valia afinal o nosso dinheiro se ainda não consegue
subornar radares eletrônicos com a mesma facilidade com que compra os guardas
de trânsito? Comunicou ao marido que usaria o carro maior e o motorista. Ele
que ficasse com o Jaguar e o mandasse lavar: estava com um cheiro desagradável.
Deve ser o motorista, essa arraia miúda cheira diferente mesmo, mas fazer o
que, precisamos deles, o marido sentenciou conformado. Foi arrumar-se para a
aula de ginástica e com devoção acendeu uma barra de incenso à foto de Imelda
Marcos que enfeitava o altarzinho que conservava no quarto.
Com o retorno do marido
teve de voltar aos motéis, mas agora, os mesmos de sempre, na companhia do
motorista, pareciam, cada qual à sua maneira, diferentes de alguma forma. O
marido nunca foi de olhar muito para seu corpo, mas os espancamentos eram menos
frequentes e mais cuidadosos (embora cada vez mais deliciosos). Mas,
felizmente, ele viajava cada vez mais a negócios.
Respirando forte o aroma
de couro do estofamento percebe uma umidade quente encorrendo-lhe pelo meio das
pernas. Encara a nuca do motorista e com a frivolidade determinada de sempre,
ordena que, enquanto ela estiver na academia, ele pegue o cachorro do marido na
pet shop, vá buscar o bracelete de ouro que encomendeu à joalheria e compre uma
correia de transmissão de reserva para o Jaguar. Quando percebe o olhar
sorridente do empregado encarando-a pelo retorvisor, levanta o vestido e maliciosamente
afasta as coxas para mostrar-lhe que está sem calcinhas.
Sabe que permanecerá
desempenhando pela vida o papel de mulherzinha fútil, pois a verdade é um preço
barato a pagar pela gaiola de ouro, quando se quer ser escravo no conforto da
riqueza; os amantes ocasionais para sexo compensatório continuarão a ser
utilizados como vibradores orgânicos. Porém, mesmo que ninguém jamais venha a
saber, definitivamente, algo alterou-se em seu interior. A colega de ginástica
comenta que ela está com um brilho diferente nos olhos e inesperadamente
pergunta: você está de amante novo, não? Não, apenas estou aprendendo a
desfrutar de toda a potência que o meu Jaguar pode oferecer. E com uma
gargalhada de quem valsasse no último baile do Império, sentenciou: Só mesmo
pobre para dizer que o dinheiro não traz felicidade!